Trabalhador retirando peixes mortos do Açude Velho. Reprodução / TV Paraíba
A Prefeitura de Campina Grande afirmou que o alto número de peixes mortos no Açude Velho, principal cartão-postal da cidade, e a retirada de quase 10 toneladas do material orgânico do local se deve a um fenômeno natural chamado de circulação vertical, que teria causado o levantamento da lâmina de esgoto no fundo do açude.
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“Nós estamos trabalhando com a hipótese de um fenômeno natural chamado de circulação vertical. No domingo, quando iniciou esse processo [de mortes dos peixes] aqui em Campina Grande, nós tivemos uma ventania muito forte. Como a lâmina de água está baixa no açude, por questão do verão e da evaporação excessiva, essa circulação [de ar] faz com essa pouca água circule fortemente, o que provavelmente levantou a lâmina de esgoto, do material orgânico depositado no fundo deste açude. Provavelmente esta movimentação liberou alguns gases que fizeram com que houvesse essa mortandade de peixes exacerbada”, afirmou a coordenadora de Meio Ambiente, Liliam Ribeiro, em entrevista à TV Paraíba.
Um inquérito foi aberto pela Polícia Civil para investigar o caso. Segundo o delegado Renato Júnior, a situação pode configurar o artigo 54 da Lei de Crimes Ambientais, que trata do crime de poluição ambiental. Além do Instituto de Polícia Científica (IPC), a Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema) também foi acionada para a realização de novas análises, com o objetivo de dimensionar a gravidade do problema.
De acordo com a coordenadora de Meio Ambiente, a aparição de peixes mortos no Açude Velho é um problema frequente, decorrente, segundo especialistas, de um processo de junção de fósforo e nitrogênio que sufoca os animais nesta época do ano. Segundo Liliam, ações já estão sendo tomadas para diminuir o mau cheiro no local.
“O trabalho aqui é incessante. Estamos o tempo todo retirando e monitorando essa matéria orgânica no objetivo de diminuir esse odor. Vamos fazer análise dos peixes, estamos fazendo o levantamento de tecnologias que ajudem a aerar esse açude, que é um local com uma demanda baixa de oxigênio. O prefeito tem estudos e projetos de médio prazo para fazer dragagem e limpeza real desse açude”, afirmou.
De acordo com a Secretaria de Serviços Urbanos e Meio Ambiente (Sesuma), as ações emergenciais no primeiro momento são a limpeza do Açude Velho, com a retirada do material biológico, e a avaliação para instalar aeradores, que são equipamentos que oxigenizam a água.
“Os aeradores já foram adquiridos, estamos só esperando as empresas entregarem, ou seja, é a curto prazo. A gente sabe que precisa investigar fundo, se há um depósito irregular de esgoto, para que a gente não fique enxugando gelo, se a gente não for na fonte e cortar o problema, isso vai se repetir mais cedo ou mais tarde”, disse Liliam Ribeiro.
O que é o fenômeno ambiental no Açude Velho?
Sesuma faz retirada de peixes mortos.. Reprodução/TV Paraíba
De acordo com o professor de biologia Ronaldo Justino, após a liberação dos gases e do material orgânico do esgoto no Açude Velho, o local entrou em processo de eutrofização artificial, no qual a alta quantidade de substâncias provoca o sufocamento das espécies.
“O processo de eutrofização é uma sucessão ecológica que ocorre na água, que sugere basicamente o aumento da diversidade, o melhoramento das condições do ambiente. Isso é a eutrofização natural, que ocorre ao longo de séculos. No caso de eutrofização artificial, o fluxo é o contrário: o aporte de dejetos, o aporte de efluentes domésticos e industriais favorecem um tensionamento do ambiente e ao invés do aumento da riqueza, você tem a redução de espécies, da disponibilidade de oxigênio, uma série de fatores”, pontua o biólogo.
Conforme analisado por Justino, o processo de eutrofização no Açude Velho, que costuma ser comum nesse período do ano, pode ter se agravado pelo despejo contínuo de matéria orgânica no local desde a sua fundação, em meados de 1830.
“No Açude Velho, os efeitos da eutrofização artificial são recorrentes. Ano após ano, a gente observa que a água fica verde, os peixes sobem à superfície, existe mortalidade, apesar da tilápia ser um peixe muito resistente, mas que resiste a condições de disponibilidade de oxigênio baixíssimas. Esse cheiro podre é característico do metabolismo anaeróbio, quando há o metabolismo das bactérias dessa matéria orgânica em excesso, que vem adentrando ao longo de décadas nesse açude que foi construído em 1830 e vem recebendo matéria orgânica de lá pra cá em proporções crescentes. É como um doente que está em estágio terminal”, analisou Justino.
Além da morte dos peixes e poluição do açude, o biólogo fala que só a investigação aberta pela Polícia Civil em conjunto com os demais órgãos envolvidos pode determinar ao certo quais outros possíveis desequilíbrios o fenômeno do Açude Velho pode desencadear.
“Essas conclusões só podem ser atestadas mediante o que a gente tem como investigação na Polícia Civil, no Ministério Público que já entrou com essa análise. E a partir da elucidação do fato que causou essa mortandade massiva de peixes, é que a gente vai conseguir produzir um prognóstico mais próprio, mas imagino que se foi a floração de cianobactérias, inclusive as garças que se alimentaram desses peixes podem acabar morrendo e a restituição da vida nesse açude pode demorar um pouco mais de tempo até que esses compostos se dissolvam”.


