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“E o que me importa é não estar vencido”. Esse verso, ouvido pela primeira vez em 1973, ainda ecoa nesse Brasil desigual e mergulhado em impasses insolúveis.
“E o que me importa é não estar vencido”. Era Ney Matogrosso, à frente dos Secos & Molhados, cantando Sangue Latino naquele remoto ano de 1973.
Na noite brasileira iniciada com o golpe de 1964, havia a canção mais explicitamente engajada contra a ditadura, e havia transgressões menos óbvias.
Os Secos & Molhados eram uma grande, salutar e necessária transgressão. E, sobre o trio, se sobrepunham a voz singularíssima e a figura única de Ney Matogrosso.
Os Secos & Molhados foram um fenômeno meteórico. Dois discos, um monte de sucessos, shows para grandes plateias e ponto final. Os Secos & Molhados acabaram.
Os Secos & Molhados não podiam ter vida longa. É que, no grupo, havia Ney Matogrosso, e seu voo não podia ser dentro de um conjunto. Havia de ser um voo solo.
Temos, então, Ney Matogrosso nos dois álbuns dos Secos & Molhados e temos Ney Matogrosso numa extensa e impecável discografia solo iniciada em 1975.
Ney Matogrosso, aos 34 anos, disse ao que veio quando lançou o primeiro disco. Água do Céu – Pássaro segue como um dos grandes discos da música popular brasileira.
E não parou mais. Sua discografia se estende por 46 anos, se partirmos do álbum de 1975 e chegarmos a Nu Com a Minha Música, lançado em 2021.
Há muito com o que se impressionar quando estamos diante de Ney Matogrosso. A beleza do canto, o domínio do palco, a riquíssima e tão diversa discografia.
“E o que me importa é não estar vencido”. Ney fez o que quis. Ney fez como quis. Do forró de Antônio Barros aos sambas de Cartola, do rock de Cazuza a Villa-Lobos.
Ney construiu uma persona pública. Com o mesmo talento, Ney desconstruiu sua persona pública. Foi e voltou muitas vezes. Ney Matogrosso nunca está vencido.
O Ney de Pro Dia Nascer Feliz é um. O Ney de Pescador de Pérolas é outro. O Ney de Bandido Corazon é um. O Ney dos cantos da Floresta Amazônica é outro.
Há o Ney debruçado sobre Ângela Maria. Há o Ney debruçado sobre Chico Buarque. Há o Ney com Astor Piazzolla. Há muitos que, juntos, formam um só Ney Matogrosso.
Ney Matogrosso é um dos grandes nomes da música popular brasileira. Ney Matogrosso é um dos grandes cantores do Brasil. É óbvio, mas é preciso dizer sempre.
Ney Matogrosso tem uma discografia exemplar. Ney Matogrosso tem uma trajetória extraordinariamente íntegra. Ney Matogrosso é um grande brasileiro.
Sou enfático nessas afirmações porque, de vez em quando, pedem que ele seja mais claro no posicionamento político ou que empunhe a bandeira da comunidade LGBT.
Ney Matogrosso não tem nenhuma necessidade de fazer isso ou aquilo. Ney Matogrosso não precisa dizer que é isso ou aquilo. Ney Matogrosso, simplesmente, É.
O resumo de tudo isso pode ser a frase que, certa vez, ouvi de um psicoterapeuta amigo meu: “Até o corpo de Ney Matogrosso é de esquerda”. Ouvi e adotei.
