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“Quero comer/Quero mamar/Quero preguiça/Quero querer/Quero sonhar/Felicidade”. Será que vocês lembram desses versos?
Tem mais, lá na frente: “Rio/Tempo de estio/Eu quero suas meninas/Eu quero suas meninas”. É Caetano Veloso, Tempo de Estio, 1978.
Caetano Veloso canta e, de repente, no meio da música, entra aquele solo de piano com uma tremenda pegada jazzística. É Tomás Improta.
Tomás Improta morreu no Rio de Janeiro neste domingo, 23 de agosto de 2026. Tinha 77 anos e enfrentava um câncer na garganta.
A mãe de Tomás Improta era pianista de concerto. O pai fazia crítica de música e tocava piano. Os caminhos de Improta não podiam ser outros: a música e o piano.
Lembro de Tomás Improta já na banda dos Doces Bárbaros, o quarteto que, há 50 anos, reuniu Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia.
Lembro de Tomás Improta em alguns ábuns de MPB dos anos 1970. Talvez o Caras & Bocas, de Gal Costa, ou o Bicho, de Caetano Veloso, ambos de 1977.
Também lembro da sonoridade muito peculiar do seu teclado no disco que traz o registro, ao vivo, do show que Caetano Veloso e Maria Bethânia fizeram em 1978.
Mas, na minha memória afetiva, o nome de Tomás Improta está associado ao grupo que acompanhou Caetano Veloso de 1978 a 1983: A Outra Banda da Terra.
Tomás Improta, piano. Arnaldo Brandão, baixo. Vinícius Cantuária, bateria. Edu Bolão, percussão. Depois, Perinho Santana, guitarra. Que banda!
Caetano gravou cinco discos com A Outra Banda da Terra: Muito (1978), Cinema Transcendental (1979), Outras Palavras (1981), Cores, Nomes (1982) e Uns (1983).
Um disco, um show. Naquela época, havia o ano “sim” e o ano “não”. No ano “sim”, uma grande turnê sucedia o lançamento do disco. No ano “não”, nem tanto.
Caetano tinha 36 anos em 1978, 41 em 1983. É um período de grande criatividade e canções incríveis. E, nelas, estão os sons dos teclados de Tomás Improta.
Poderia citar muitas canções, mas vou mencionar aquele número piano e voz de Muito: Eu Te Amo, que, originalmente, já ouvíramos com Gal Costa nos Doces Bárbaros.
“Eu nunca te disse/Não tem onde caiba/Eu te amo/Sim, eu te amo/Serei pra sempre o teu cantor” – Caetano surpreende ao dizer “cantor” no lugar de “amor”.
Tomás Improta teve muitas histórias depois que A Outra Banda da Terra acabou, em 1983. Foi professor de música, gravou seus próprios discos.
Mas a imagem e o som que mais guardei dele foram do Improta da Outra Banda da Terra. Foi onde mais ouvi seu piano. Foi quando pude vê-lo de perto, ao vivo.
Por isso, quando soube da sua morte, lembrei logo do solo jazzístico de Tempo de Estio e do seu piano junto da bela voz de Caetano fazendo Eu Te Amo.
Em Uns, o último disco de Caetano Veloso com A Outra Banda da Terra, há uma canção chamada A Outra Banda da Terra. Ela diz assim:
“Nossa banda da terra é outra/Canadá, mexicuba/Muitas gatas na tuba/Dos rapazes da banda cá/Gozar/A lida/Indefinidamente/Amar.”

