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As ferramentas de inteligência artificial (IA), como o ChatGPT, passaram a fazer parte da rotina de muitos estudantes e também chegaram às salas de aula. Na preparação para o Enem, a tecnologia pode ser utilizada para organizar os estudos, tirar dúvidas e estruturar conteúdos, mas professores alertam que a facilidade de encontrar respostas pode se tornar um problema quando substitui o esforço e a reflexão do aluno.
O Jornal da Paraíba ouviu o professor de Filosofia Márcio Krauss e a professora de Biologia Aurilene sobre os impactos da ferramenta na preparação para a prova. Para os dois educadores, o ChatGPT não precisa ser encarado como um recurso necessariamente positivo ou negativo, pois o resultado depende da forma como o estudante utiliza a tecnologia.
IA pode ajudar na organização dos estudos
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Para Krauss, não faz sentido estabelecer uma ruptura completa entre estudantes e ferramentas de inteligência artificial. Segundo ele, o caminho passa pela educação digital, ensinando os alunos a utilizar esses recursos de maneira responsável.
“Eu não sou do time que demoniza a ferramenta, mas também não sou do time que romantiza ela”, afirmou.
Na avaliação do professor, o ChatGPT pode ser utilizado para organizar ideias, estruturar resumos, construir esquemas e até encontrar conteúdos específicos na internet.
A ferramenta também pode ajudar o estudante que já realizou uma pesquisa a filtrar informações e torná-las mais objetivas. Para Krauss, entretanto, esse uso exige maturidade acadêmica, já que estudantes podem acabar recorrendo à IA para substituir etapas importantes do aprendizado.
A professora Aurilene também vê possibilidades de utilização do ChatGPT para a organização da preparação para o Enem. Entre os exemplos citados por ela estão a elaboração de uma rotina de estudos, a identificação dos conteúdos mais cobrados e a relação entre disciplinas, competências e habilidades exigidas pelo exame.
“Dá para utilizar, sim, como uma ferramenta”, explicou.
Respostas prontas podem prejudicar aprendizado
O principal alerta feito pelos professores está relacionado ao uso excessivo da inteligência artificial. Segundo Aurilene, muitos estudantes acabam apenas reproduzindo as respostas encontradas no ChatGPT, sem desenvolver uma reflexão própria.
A professora afirma que tem observado dificuldades entre alunos do ensino médio na organização de ideias, construção de frases, interpretação e escrita de forma clara e coesa. Para ela, a utilização inadequada da IA pode aprofundar esse problema.
“Eles só reproduzem o que eles encontram ali e não fazem realmente uma reflexão”, disse.
Márcio também chama atenção para possíveis prejuízos quando a ferramenta deixa de ser um apoio e passa a substituir o processo de aprendizagem. Entre os aspectos que podem ser afetados, segundo o professor, estão a concentração, o raciocínio, a motivação e o envolvimento com os estudos.
No caso do Enem, ele destaca ainda que saber determinado conteúdo não é suficiente. O estudante precisa conhecer a forma como a prova apresenta suas questões e desenvolver experiência por meio de exercícios e simulados.
“O ChatGPT pode fornecer um caminho mais curto para uma determinada informação, só que a gente precisa transformar essa informação em acerto de questão”, explicou.
ChatGPT não substitui livros, professores e simulados
Foto: Reprodução/TV Paraíba.. Turma de alunos do IFPB que venceu prêmio com projeto sobre tecnologia. Foto: Reprodução/TV Paraíba.
Outro ponto destacado pelos professores é a necessidade de verificar as informações fornecidas pela inteligência artificial. Isso porque o ChatGPT pode apresentar respostas incorretas ou imprecisas.
Krauss relatou já ter observado casos em que a ferramenta apresentou confusões envolvendo datas, locais e personagens históricos. Por isso, segundo ele, o estudante não deve considerar a resposta da IA como uma fonte definitiva.
A recomendação é confrontar as informações com livros, sites confiáveis e outras fontes de pesquisa.
“Mas eu acredito que o livro, principalmente, precisa ter um protagonismo nessa história”, afirmou.
E na redação do Enem?
Na preparação para a redação, o ChatGPT também pode ter diferentes funções. Márcio considera que a ferramenta pode ajudar, por exemplo, na busca por repertórios socioculturais e na identificação de aspectos relacionados à coerência e à concordância de um texto já produzido pelo estudante.
O professor, porém, faz uma ressalva: não recomenda que o aluno simplesmente peça à IA para escrever a redação por ele.
Segundo Krauss, respostas geradas pela ferramenta podem apresentar argumentos previsíveis e pouco aprofundados, além de não substituírem a avaliação de alguém com experiência na correção da prova.
Por isso, uma possibilidade seria o estudante produzir o próprio texto e utilizar a IA como um recurso complementar de revisão, sem deixar de buscar orientação de professores.
Para Aurilene, o problema também está na perda da autoria e da reflexão quando o aluno entrega à ferramenta a tarefa de construir seus argumentos.
Escola pode ensinar uso responsável da IA
Smiling woman texting on her phone. Jornal da Paraíba
Diante da presença cada vez maior da inteligência artificial no cotidiano dos estudantes, Márcio Krauss defende que escolas e professores também discutam o assunto em sala de aula.
Uma das possibilidades apontadas por ele seria a realização de oficinas, laboratórios e palestras com profissionais das áreas de tecnologia e educação. A proposta seria apresentar aos estudantes os benefícios e as limitações das ferramentas, além de abordar temas relacionados à cidadania digital.
“Seria interessante trazer alguém da educação e alguém do digital, para poder ter uma fala conjunta para esses alunos”, afirmou.
Para o professor, a discussão não deve se limitar ao funcionamento do ChatGPT, mas também abordar os limites, riscos, imprecisões e possibilidades de uso eficiente da tecnologia.
A professora Aurilene segue uma linha semelhante. Para ela, a inteligência artificial pode facilitar atividades de professores e estudantes, mas o uso precisa considerar a idade e a maturidade acadêmica de quem utiliza a ferramenta.
Assim, para quem se prepara para o Enem, o ChatGPT pode funcionar como um recurso complementar para organizar a rotina, revisar conteúdos e auxiliar pesquisas. O desenvolvimento das habilidades cobradas na prova, no entanto, continua dependendo de estudo, leitura, interpretação, resolução de questões, produção de textos e acompanhamento pedagógico.



