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Do barro ao Reisado: mestres da cultura popular mantêm vivas tradições no Alto Sertão da Paraíba

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					Do barro ao Reisado: mestres da cultura popular mantêm vivas tradições no Alto Sertão da Paraíba

Mestres da cultura popular mantêm vivas tradições no Alto Sertão da Paraíba. (Foto: Reprodução/Pisada do Sertão).

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Há mais de 100 anos, o Reisado de José de Moura atravessa gerações em Poço de José de Moura, no Sertão da Paraíba. José Vandevan entrou na brincadeira aos 18 anos, como brincante, e aprendeu os primeiros passos com o pai, que também era mestre do grupo. Hoje, quase quatro décadas depois, ele é responsável por manter a tradição e ensinar às novas gerações o que aprendeu dentro da própria família.

O Reisado é uma manifestação popular que mistura música, dança, poesia e teatro. A tradição reúne personagens, cantos e encenações.

A história de José é uma das cinco reconhecidas pelo projeto Casa dos Mestres, realizado pela Associação Cultural Pisada do Sertão. A iniciativa está em fase de implantação nos municípios de Poço de José de Moura, Poço Dantas e Cajazeiras e reúne mestres ligados ao artesanato, à produção com barro, à poesia, ao Reisado e à música.

A proposta é reconhecer as próprias casas onde esses mestres vivem e desenvolvem seus saberes como espaços de cultura, memória e aprendizagem. Nesses locais, serão criadas estruturas para contar as trajetórias dos participantes, com fotografias, objetos, instrumentos, peças e outros registros.

Reisado ficou mais de 20 anos parado

José tinha 18 anos quando entrou pela primeira vez em um grupo de Reisado. O aprendizado aconteceu na prática, acompanhando o pai e conhecendo as músicas, personagens e movimentos da manifestação. Na época, ele vivia em uma comunidade onde poucas casas tinham televisão. As brincadeiras, portanto, eram criadas pelas próprias crianças e moradores. O Reisado fazia parte desse cotidiano.

Era um mundo encantado pra nós. A gente aqui vivia numa vilazinha que mal tinha uma televisão, algumas casas tinham uma televisão. Então, a gente tinha que inventar as nossas brincadeiras”, lembra José.

A tradição, no entanto, passou por um longo período de interrupção. Depois da morte do mestre fundador José de Moura, o grupo ficou mais de 20 anos sem brincar. Nesse período, a manifestação permaneceu viva na memória dos moradores.

A retomada aconteceu durante uma apresentação em homenagem ao centenário de nascimento do fundador. Para José, aquele momento marcou o início de um novo ciclo do Reisado na comunidade. Desde então, ele está à frente do grupo há quase 40 anos. A manifestação também passou a reunir diferentes gerações: há brincantes cujos pais, avós, bisavós e até tataravós já participaram.


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Reisado ficou mais de 20 anos parado. (Foto: Arquivo pessoal/José Vandevan).

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Hoje, cerca de 16 crianças estão sendo preparadas para integrar o grupo. Para José, ensinar os pequenos é uma forma de garantir que a tradição não termine com a geração atual.

As crianças muitas vezes estão só no celular. Conversar um pouco, contar a história do povo, da sua gente, dos seus antepassados, elas param e começam a perguntar. Eu acho bom, porque quem ensina uma criança está se vivendo através dela, está se perpetuando cada vez mais.

É essa relação entre passado e presente que, segundo José, mantém a manifestação viva. As músicas podem falar de histórias antigas, mas também dos acontecimentos atuais, das festas, das preocupações da comunidade e até de acontecimentos políticos.

Eu canto uma música de um passado e canto um verso de um presente. Estamos vivendo o momento agora das eleições, cantar a eleição todinha. Se estava no tempo da Copa, cantamos a Copa. Se estamos no Natal, cantemos o Natal. Vivemos a cada momento. O Reisado é assim, se manifestando em cada fase da nossa vida”, explica.

O grupo também mudou ao longo do tempo. Se no início apenas homens participavam, atualmente as mulheres são maioria e ocupam posições de destaque na organização da brincadeira.

José diz que manter uma tradição centenária em uma época em que novas formas de entretenimento surgem diariamente é um desafio. A saída, segundo ele, está em adaptar a manifestação sem perder os elementos que fazem parte de sua identidade.

O saber do barro passado de geração em geração


					Do barro ao Reisado: mestres da cultura popular mantêm vivas tradições no Alto Sertão da Paraíba

O saber do barro passado de geração em geração. (Foto: Reprodução/Pisada do Sertão).

A transmissão entre gerações também está presente na história de Dona Lourdes, mestra louceira. O trabalho com o barro começou quando ela ainda era criança, por volta dos 10 anos, seguindo o que havia aprendido com a mãe, que por sua vez aprendeu com a avó.

O ofício também ajudou a sustentar a família. Ainda jovem, Dona Lourdes produzia peças para vender e entregava parte do dinheiro à mãe para ajudar nas despesas. Hoje, os seis filhos dela participam da produção, e uma das netas já começou a aprender a moldar o barro.

O saber de moldar o barro, de forma ancestral, totalmente às mãos, vem da geração da minha vó. Hoje os seis filhos de Lurdinha se envolvem na arte, também trabalham, moldam e produzem as peças, já chegando nos netos. A neta mais velha também já produz”, conta Carla Heloísa, filha de Dona Lourdes.


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O saber do barro passado de geração em geração. (Foto: Arquivo Pessoal/Carla Heloísa).

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O processo é longo. O barro é retirado em uma área rural de outro município e Dona Lourdes acompanha pessoalmente essa etapa para verificar a qualidade da matéria-prima. Depois, o material é pisado, peneirado, lavado e amassado até chegar ao ponto adequado para a produção.

Entre os trabalhos está uma coleção que inclui o pote ‘Ex-votos’, inspirado na religiosidade e nas romarias do Sertão. A peça representa a fé e a esperança dos sertanejos e também a intenção da família de fazer com que o trabalho seja reconhecido como arte e como parte da história de sua ancestralidade.

Apesar das dificuldades para conseguir matéria-prima, a tradição continua sendo passada adiante. O interesse de pessoas em aprender a moldar o barro também aparece nas oficinas e cursos promovidos pela associação, além de parcerias com artistas que utilizam as peças em seus próprios trabalhos.

Para a família, manter o artesanato vivo significa também preservar um conhecimento que atravessa gerações. A relação de Dona Lourdes com o barro, no entanto, começou muito antes de ela se tornar mestra louceira: foi a mãe quem ensinou os primeiros passos do ofício.

Tenho como lembrança de minha mãe o esforço dela e, naquele tempo, ela não tinha a ajuda que a gente tem hoje. Lembro e agradeço a ela por ter me ensinado e ter me dado o compromisso de começar minhas próprias vendas. Parte do dinheiro das vendas eu dava para ela para ajudar nas despesas e outra parte eu podia comprar minhas coisas”, lembra Dona Lourdes.

Hoje, o conhecimento que ela recebeu da mãe continua sendo moldado pelas mãos da família e passado para as novas gerações, mantendo vivo um ofício que é, ao mesmo tempo, trabalho, arte e memória.

Outros mestres também preservam seus saberes


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Outros mestres também preservam seus saberes. (Foto: Reprodução/Pisada do Sertão).

Além de José Vandevan e Dona Lourdes, o projeto reconhece Roberto Cesário da Silva, conhecido como Tatu, mestre na poesia; Francisco Amaro da Silva, o Chico Amaro, mestre sanfoneiro; e Josefa Francisca da Conceição, Dona Zefinha, mestra em artesanato e fiandeira.

Cada mestre mantém uma prática diferente, mas todos têm em comum a transmissão de conhecimentos construídos dentro das próprias comunidades. Além das estruturas de memória, o projeto prevê vivências e visitas pedagógicas para aproximar os mestres das novas gerações.

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