A Universidade Federal da Paraíba (UFPB) tem ampliado sua atuação no enfrentamento à desinformação nas eleições de 2026. Em um ano marcado pelo crescimento expressivo de conteúdos gerados por inteligência artificial, a instituição desenvolve tecnologias, produz pesquisa acadêmica e coordena ações de educação midiática voltadas à proteção do processo democrático.
Decisões judiciais sobre deepfakes crescem mais de 350%
Um dado que ilustra a dimensão do problema foi apontado pelo Observatório de Eleições e Tecnologias do Centro de Direito, Internet e Sociedade, em parceria com o JusBrasil: foram 164 decisões judiciais sobre deepfakes na pré-campanha de 2026, contra apenas 35 nas eleições de 2024, um aumento de mais de 350%.
O levantamento considera o período de 1º de janeiro a 17 de julho, antes mesmo do início oficial da campanha eleitoral.
Sistema UIARA detecta clonagem de voz
O exemplo mais visível da cooperação entre a UFPB e o Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) é o sistema UIARA, ferramenta de inteligência artificial desenvolvida para detectar deepfakes de áudio, também conhecidos como clonagem de voz, em contextos eleitorais.
Lançado em julho de 2024, o sistema usa aprendizado profundo (deep learning) e foi treinado com mais de 1.500 pares de amostras de voz, incluindo falantes da Paraíba e de outras regiões do país. Quando um áudio é denunciado como falso, o juiz eleitoral pode fazer o upload do material e o UIARA indica, percentualmente, a probabilidade de a voz ser autêntica ou uma deepfake. A decisão final permanece com o magistrado.
O projeto envolve pesquisadores do Laboratório Integrado de Estudos da Voz (LIEV) e de programas de pós-graduação em Linguística e Fonoaudiologia da UFPB, uma integração entre tecnologia, linguagem e saúde.
Educação midiática e rede de combate à desinformação
No campo da comunicação, o Laboratório ALUMIA, vinculado ao Centro de Comunicação, Turismo e Artes (CCTA) da UFPB, atua em quatro eixos: checagem de fatos, desenvolvimento de tecnologias com IA, educação midiática e pesquisa acadêmica.
Dentro desse conjunto de iniciativas, o laboratório desenvolve o projeto “Deepfake e Eleições 2026: educação midiática no enfrentamento à desinformação”, uma linha estratégica voltada à prevenção dos impactos da IA no processo democrático.
A professora e pesquisadora Kellyanne Alves, coordenadora do projeto, explica o desafio:
“Dentro do contexto atual, dessa era conhecida como a era da IA, há uma potencialização cada vez mais de geração e publicação de informações sintéticas. Isso traz um desafio muito grande porque há uma velocidade de produção e publicação em descompasso com a verificação dessas informações.”
O projeto produziu conteúdos multiplataforma ao longo do ano, disponibilizados no Instagram, Spotify e YouTube do laboratório. Um vídeo sobre como identificar deepfakes teve quase 3 mil visualizações e muitos compartilhamentos.
“A gente produz conteúdos acessíveis, didáticos, voltados a estudantes, professores, técnicos administrativos e toda a comunidade externa da UFPB, contribuindo para essa conscientização dos riscos que os deepfakes trazem para a democracia e para o processo eleitoral. Precisamos formar multiplicadores nesse combate à desinformação.”
O ALUMIA também coordena a Rede Paraibana de Combate à Desinformação, lançada em abril de 2025 e capitaneada pela reitora da UFPB, professora Terezinha Domiciano, ao lado dos professores Dinarte Varela, Sandra Moura e Emília Barreto.
Pesquisa acadêmica sobre comportamento eleitoral
Além da tecnologia e da checagem, a UFPB contribui com produção acadêmica sobre o próprio processo eleitoral. O Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais (PPGCPRI) mantém linhas de pesquisa sobre gastos de campanha, ciclos políticos e comportamento eleitoral.
O professor Ítalo Fittipaldi, Doutor e Mestre em Ciência Política pela UFPE e professor permanente do PPGCPRI, destaca o papel da universidade na análise das pesquisas de opinião:
“Muitas vezes essas pesquisas são apresentadas como verdades absolutas, quando na verdade são apenas intenções de voto, um retrato específico do comportamento do eleitor. O papel da universidade é fazer com que se debruce sobre o comportamento eleitoral e analisar as pesquisas eleitorais que são apresentadas pelos diversos institutos.”
Fittipaldi, que também é líder do Núcleo de Pesquisa Aplicada em Políticas Governamentais (NPGOV), coordena estudos sobre gastos de campanha e ciclos políticos . Em análise recente sobre a queda de 42% no número de candidaturas na Paraíba em 2026, o professor explicou que o movimento é atípico:
“Quando a gente analisa o quantitativo de candidatos por eleição de 2006 até 2026, você teve uma reversão da ascensão do número de candidatos. Esse número estava crescendo exponencialmente, atingindo o ápice em 2022, e aí você tem uma queda. Em primeiro lugar, a queda que houve nessa eleição de 2026 foi tão significativa porque 2022 é que o número foi atípico.”
Segundo o professor, uma das explicações está na concentração dos recursos do fundo partidário em um número menor de candidaturas, o que leva as siglas a reduzirem suas nominatas.
Dados sobre o uso de IA na política
Pesquisa do Observatório de IA nas Eleições do Data Privacy Brasil identificou 413 casos de uso de inteligência artificial em publicações nas redes sociais relacionadas à política brasileira entre janeiro e agosto deste ano, uma média de quase dois casos por dia. O Instagram lidera a concentração, seguido pelo TikTok e pelo X.
Cooperação institucional
A relação entre a UFPB e o TRE-PB não começou em 2026. O Termo de Cooperação Técnica nº 04/2018 instituiu o projeto de extensão “A UFPB nas Eleições: apoio logístico à preparação das urnas, à votação e transmissão de resultados”, que convoca estudantes voluntários para atuar diretamente no processo eleitoral.
Em 2024, o TRE-PB cedeu à UFPB 465 itens de TI, incluindo 300 CPUs. No mesmo ano, a Justiça Eleitoral emprestou 110 urnas eletrônicas para a consulta eleitoral interna da universidade.
Na UFPB, a Central de Aulas será entregue ao TRE-PB a partir desta sexta-feira (2). Não haverá aulas ou atividades acadêmicas regulares nos dias 2 e 3 de outubro, com retorno previsto para segunda-feira (5).
Carta da Andifes
A UFPB manifestou apoio à Carta da Andifes à Sociedade Brasileira, lançada em 23 de setembro pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior. A manifestação conjunta de 71 universidades federais e mais de 300 campi reforça o papel estratégico da educação superior pública e da ciência como políticas de Estado.
O documento destaca a urgência de garantir financiamento previsível, autonomia universitária, fortalecimento das ações afirmativas e um projeto de desenvolvimento pautado pela justiça social e sustentabilidade.



