Foto/Reprodução
Na imagem que abre a coluna, vemos Jomard Muniz de Britto em seu apartamento, no Recife, segurando uma fotografia. A fotografia, em preto e branco, é de Germana Bronzeado.
Germana Bronzeado fez a foto nos bastidores do show Circuladô, no Teatro Guararapes, em julho de 1992. Caetano Veloso estava a poucos dias de completar 50 anos.
Na foto tirada por Germana Bronzeado, da esquerda para a direita, estão Caetano Veloso, Jomard Muniz de Britto, uma amiga de Jomard (não sei o nome), eu e Chico Pereira.
A entrevista com Caetano Veloso que trago na coluna desta quarta-feira, 21 de outubro de 2026, nunca foi publicada integalmente. Foi feita por mim em julho de 2009.
A conversa foi gravada pela equipe da cineasta pernambucana Luci Alcântara para o documentário JMB, O Famigerado. Caetano Veloso estava em turnê com o show Zii & Zie.
Sílvio Osias – Em 1998, numa entrevista aqui mesmo em João Pessoa, você me disse uma coisa que ainda não tinha dito para ninguém, pelo menos em entrevistas, até porque talvez não tivesse sido provocado sobre o assunto. Você me disse que o Tropicalismo é filho da lição de Pernambuco. Não sei se você está lembrado?
Caetano Veloso – Eu lembro muito bem.
– Está até no livro de José Teles, Do Frevo ao Mangue Beat, ele cita o trecho da entrevista. É uma frase que, para nós, é muito significativa. Sempre que me lembro dessa frase e me lembro de Jomard Muniz de Britto e da presença dele naquele momento histórico do Tropicalismo, eu fico querendo, Caetano, ouvi-lo um pouco mais sobre esta lição de Pernambuco.
– A lição de Pernambuco é porque Gil veio passar um período em Pernambuco, no Recife, àquela altura, e quando voltou do Recife, ele voltou com as ideias que vieram desaguar no Tropicalismo, e assim com muita urgência. E ele próprio atribuía à vivência no Recife. Ele dizia que tinha sentido a força da cultura popular brasileira e, ao mesmo tempo, a capacidade que ela poderia ter de fomentar a cultura global. Gil ficou no Recife um tempo e ouviu a Banda de Pífanos de Caruaru. A Banda de Pífanos deu para ele uma perspectiva que confirmava umas coisas que vinham se esboçando nas nossas cabeças. Coisas que vinham das conversas com Rogério Duarte, com José Agripino de Paula, coisas que vinham surgindo na cabeça do próprio Gil. Então, é por isso que eu sempre falo da lição de Pernambuco, porque, para Gil, que foi quem teve a ideia inicial de criar alguma coisa que veio depois a se chamar Tropicalismo, foi a passagem por Pernambuco que deu a lição. Agora, eu acho maravilhoso que você ligue Jomard a isso porque ele é Pernambuco e é Tropicalismo. E Jomard veio depois se aproximar da atitude tropicalista, mas com uma perspectiva pernambucana.
– Você sabe que Jomard conheceu Gil naquela passagem pelo Recife?
– Eu imagino, eu imagino. Umas das coisas que Gil dizia é que as conversas que ele teve no Recife contribuíram muito para que ele pusesse nesta perspectiva de sujeito da ação criativa, cultural.
– Ele conheceu Carlos Fernando, Celso Marconi, o pessoal que depois formaria o Quinteto Violado…
– Gil conheceu pessoas no Recife de quem ele gostou muito e contribuíram muito para que ele tivesse essa visão.
– Isso é um pouco antes do festival de Alegria, Alegria e Domingo no Parque, um pouco antes de vocês conquistarem uma projeção nacional…
– É, mas eu não conheci Jomard naquele momento.
– A propósito, hoje eu li um texto em que você diz o seguinte: “Em 1966, Gil externou sua inquietação e sua impaciência com relação ao modo de encarar o trabalho. Falou dos Beatles e da fome no Nordeste (tinha passado uns meses no Recife), da violência da ditadura militar e da cultura de massas: não podíamos mais nos manter no mundo resguardado da esquerda pós-Bossa Nova”.
– Ele sentia que aqui você percebia a opressão por causa da ditadura militar de uma maneira mais contundente e, ao mesmo tempo, um esboço de resposta mais definido.
– Por causa da miséria?
– Eu não estava com ele no Recife, mas eu acredito que fosse a miséria maior e o contraste maior da chegada da ditadura com a tradição política de Pernambuco, sobretudo no período Arraes. Ele falava nisso. Isso era um componente definidor mesmo.
– É, e Pernambuco com aquela tradição toda de lutas de esquerda, independente do governo de Miguel Arraes…
– Havia as lutas camponesas. Toda uma tradição de política de esquerda, onde ficava mais evidente a opressão exercida pelo governo militar. Isso ele viu também e, por outro lado, a resposta cultural que aparecia nas conversas com as pessoas que ele conheceu e às quais ele se referia, que ficava condensada na criação da Banda de Pífanos de Caruaru.
– Logo depois, em 1968, quando o Tropicalismo já era conhecido nacionalmente, houve um manifesto tropicalista nordestino, assinado por pessoas de Pernambuco, do Rio Grande do Norte e aqui da Paraíba. E Jomard foi a figura central. Você e Gil foram signatários desse manifesto quando passaram pelo Recife no show da Rhodia. Que lembrança você tem desse momento?
– Bem vaga. Só lembro que houve isso, e a gente passou aqui por causa daquela excursão da Rhodia.
– Foi nessa época que Jomard o conheceu, levado por Celso Marconi. Mas a verdade é que as lembranças maiores que você tem de Jomard são a partir da volta do exílio.
– Depois do exílio, aí sim, ele é uma figura que se torna mais concreta, mais presente, mais definida. Gil conhecia mais ele antes. Acho que ele foi crescendo de uma figura relativamente presente para uma figura definitivamente muito presente.
– Para Caetano, quem é, afinal, Jomard Muniz de Britto?
– Cara, Jomard é muita coisa, muita coisa! Ele é uma dessas pessoas em constante movimento e ele é uma figura que, pra mim, cataliza no Recife uma série de movimentos da alma entre muitas pessoas e dá uma espécie de…eu acho que ele profetizou o que veio a acontecer no Mangue Beat com a própria atitude dele. E ele sempre teve uma maneira de ser que era profundamente pernambucana e ao mesmo tempo parecia ter a necessidade e a capacidade de intuir uma maneira de superar as coisas que em Pernambuco pudessem ser travas. É curioso isto, eu acho. Porque, muitas vezes, grandes pernambucanos, ou grandes pessoas que a gente conhece em Pernambuco, são justamente grandes por serem grandemente restritivas. Lembro de uma história engraçada de Ariano Suassuna que contam na Bahia. Ele foi a Salvador, quando a Escola de Teatro montou O Auto da Compadecida, e, depois, disse que não tinha vontade de voltar a um lugar onde as pessoas estão num bar, um baiano se levanta para ir ao banheiro e os outros baianos falam bem daquela pessoa que se levantou. Então, para o baiano, que é assim, o pernambucano aparece como restritivo. E, curiosamente, o temperamento do Jomard parece ser o oposto, porque é agregador, embora eu não diga que ele seja uma pessoa que procure ser diplomática, não é isso, é o próprio espírito assim mais absorvente, mais líquido.
A cineasta Luci Alcântara intervém:
– Eu queria jogar um mote agora para vocês falarem. Eu sou “peba”. Vocês vão falar sobre o que é “peba”, Pernambuco e Bahia. Como eu sou filha de baiano com pernambucano, eu sou pebíssima.
– Caetano, e então? Peba!
– Eu sou superpeba, porque você sabe que eu tenho cidadania pernambucana…
– Aliás, um pouco antes de receber o título, você passava pelo Recife e, no show, cantava Tropicália em homenagem a Jomard e aos tropicalistas de Pernambuco. Quando você fala no Recife, eu lembro de uma história que Jomard me contou. Em 1968, depois de um show, vocês passaram a madrugada num bar, bebendo, conversando, e, na volta, cruzaram a ponte que liga o Pina ao centro do Recife. O carro parou, você olhou para a cidade e disse: “Parece Paris!”.
– E quando eu conheci Paris, e eu conheci Paris em 1968, eu disse: parece o Recife.
– Você diz “no Recife” e não “em Recife”…
– Eu aprendi com os pernambucanos. Você sabe que João Cabral me disse que ficava até comovido quando eu dizia “no Recife” porque as pessoas que não são pernambucanas dizem “em Recife”. Ele dizia: “Está errado! Tem que ter o artigo porque é um acidente geográfico”.
– Se bem que Maceió desmente este argumento…
– É, todas essas regras têm exceções.
– Aqui na Paraíba nós dizemos “em Ricife”.
– Nordestino dizia “Ricife”. Na Bahia, a gente dizia “em Recife” [com o “e” aberto]. Lá em Pernambuco, todo mundo dizia “no Ricife”. Depois é que veio esta história de dizer “Recife” [com o “e” fechado], como se fosse carioca, mas é novidade. Eu não sou pernambucano, mas sou velho!
– Eu tenho 50 anos e lembro perfeitamente…
– Eu tenho 66 e lembro mais ainda!
– Eu me aproximei de você e de Gil através de Jomard. Eu vejo nisto não só um gesto de generosidade dele. Neste gesto, tem também a consciência dele de que, por tudo o que elas representam, é importante dividir essas pessoas com os amigos.
– Rapaz, isso é uma via de mão dupla, porque também encontrar pessoas como você, ou como Geneton Moraes, pessoas maravilhosas que eu conheci, tem uma lista de pessoas maravilhosas que eu conheci graças a ele. Jomard continua ouvindo cada disco novo meu que sai, querendo ver cada novo show, porque ele mantém um grau de exigência no topo. Se eu tivesse sido desleal com o embrião das nossas transgressões, ele reagiria de outro modo. Ele faria, por mais suavemente que fosse, com que eu percebesse que alguma coisa não era aprovada. Ele é que me dá uma medida da exigência. É uma ajuda de manutenção do nível.

