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Em 2007, aposentado e morando em Belo Horizonte, Dom José Maria Pires, o grande arcebispo preto que viveu 30 anos na Paraíba, chamou minha atenção para as igrejas neopentecostais que ele via crescer na periferia de BH.
Elas estão fazendo o que nós, católicos, desaprendemos a fazer, me disse Dom José. E prosseguiu: é preciso entender que o Brasil sem elas não existe mais.
Em 2014, conheci uma garota que devia ter uns 20 anos. Era pobre, morava na periferia, trabalhava oito horas por dia para ganhar o salário-mínimo e, à noite, estudava numa faculdade privada graças a um desses programas do PT.
Vi o seu perfil numa rede social. A garota se identificava, politicamente, como “de direita”. Para mim, foi o primeiro sinal – talvez pequeno, mas muito simbólico – de que algo estava para acontecer. Aconteceu em 2018: a eleição de Jair Bolsonaro.
Uma fala de Lula no documentário Apocalipse nos Trópicos sugere que ele compreende esses fenômenos. Ele enxerga o fracasso do sindicato e da Igreja Católica tanto quanto constata o acolhimento que o pobre encontra na comunidade evangélica.
Que papo é esse sobre o crescimento das igrejas neopentecostais horas depois da vitória acachapante da direita nas eleições desse domingo, quatro de outubro de 2026? – me perguntarão muitos dos que votaram em Lula e em candidatos progressistas.
Respondo: não, não é sobre os evangélicos essa minha conversa. É sobre a perda, no campo progressista, da capacidade de dialogar com forças antagônicas. É sobre certezas que parecem certezas, mas que não o são. É sobre arrogância, autossuficiência.
Amigos que votam em Lula não conseguem dialogar entre si. Não conseguem porque pensam diferente. Não conseguem porque um não aceita que o outro não seja igual, seja diferente. A despeito de que – os dois – votem no mesmo candidato.
Ora, se não há diálogo entre amigos que votam num mesmo candidato, como, então, o campo progressista irá buscar os votos de quem vota em outros candidatos?
Faz tempo – uns dois anos, pelo menos – que digo a pessoas amigas que Lula não deveria disputar a reeleição. Há o risco real de uma derrota melancólica. Não, só temos Lula, e ele é imbatível – era o que ouvia como resposta.
Lula teve quatro anos para preparar a sua sucessão. O campo progressista não pode crer que o Brasil só tem Lula. É preciso formar quadros, é preciso ter outros nomes. A direita – a pior direita – tem feito isso. Por que a esquerda não pode fazer?
Lula tem uma biografia singularmente bela. Lula tem uma inteligência política rara. Mas Lula está indo embora, ainda que ele seja o vitorioso no segundo turno, daqui a três semanas. A dificuldade de enxergar esse fato – a finitude – precisa ser superada.
Vejam Fernando Haddad. É um dos melhores – talvez o melhor – quadros da esquerda brasileira. Mas é queimado dentro do próprio partido, é um dos alvos preferenciais do chamado fogo amigo. E, a cada eleição, é escolhido para ir ao sacrifício.
Haddad foi ao sacrifício na disputa presidencial em 2018. Novamente em 2022, quando Tarcísio de Freitas se elegeu governador de São Paulo, e mais uma vez agora, em 2026, na reeleição de Tarcísio. Como fazê-lo candidato a presidente após sucessivas derrotas?
Vimos as mulheres do campo progressista derrotadas neste quatro de outubro. Benedita, Marina, Simone, Manuela, Gleisi, Eliziane. Foi uma das notas mais tristes dessa eleição. Que diferença elas certamente fariam num Senado dominado por homens de direita!
Mas vimos, sobretudo, o êxito de quem atenta contra a democracia, de quem não é afeito ao jogo democrático, de quem segue flertando com as saídas autoritárias.
Voto no colégio estadual onde fiz meu ginásio. A cada eleição, passa um filme na minha memória. Esse filme é da primeira metade da década de 1970. É do tempo da ditadura. Dessa vez, vi a parede onde, num jornal mural, expus meus primeiros artigos.
Era o tempo da ditadura. Mas era um tempo em que havia sonhos, desejos. O de ser jornalista, o de ir para a universidade, o de ver a ditadura militar chegar ao fim. Tudo isso aconteceu. Muitos avanços aconteceram. E, também, muitos retrocessos.
Os sonhos ficaram para trás. Envelheceram. Afinal, sou um homem velho. Tenho quase 70 anos e não verei mais muitas eleições. Eleição é como marcador de tempo.
Lula e Flávio Bolsonaro se enfrentarão daqui a três semanas. Acho mais provável que Flávio ganhe, mas não acho impossível a vitória de Lula.
A uma amiga nascida nos anos 1990, disse que sobrevivi a uma ditadura militar. Sobrevivi a quatro anos de Jair Bolsonaro, ainda que com um diagnóstico de depressão. Pretendo sobreviver à vitória da extrema direita.

