Foto/Reprodução.
17 de dezembro de 1969. A principal notícia daquela quarta-feira foi a morte de Arthur da Costa da Silva, 70 anos, o segundo presidente da ditadura militar brasileira, que havia sido afastado do cargo desde que sofrera um acidente vascular cerebral.
Em 1969, eu tinha somente 10 dez anos, e, na minha memória, aquele 17 de dezembro está associado também a uma morte que não ocorreu. Foi criada por um DJ americano.
Ouvi a notícia dias antes no programa de rádio Diário Íntimo da Cidade, da rádio Correio da Paraíba AM. Quem contou todos os detalhes foi o jornalista Carlos Aranha.
O DJ Russ Gibb assegurava que o beatle Paul McCartney morrera num acidente de carro em 1966 e que um sósia assumira o lugar dele. As “provas”, segundo o DJ, estavam nas capas dos discos e nas canções dos Beatles. E eram fartas.
A canção A Day in the Life, ouvida do fim para o início, reproduzia os sons do acidente, enquanto a depois célebre capa do LP Abbey Road encenava o cortejo fúnebre.
No programa radiofônico, Carlos Aranha tocou A Day in the Life do final para o começo. Como o fez manualmente, a rotação ficou instável. Meu pai resolveu fazer tecnicamente melhor e levou a gravação para a emissora. Fui junto.
Passei a noite na discoteca da rádio, maravilhado com o acervo, enquanto Carlos Aranha e meu pai falavam de política. No estúdio, ouvi o programa ao vivo. De um lado, a notícia da morte de Costa e Silva. Do outro, os sons da canção dos Beatles.
A Day in the Life é a última faixa do Sgt. Pepper, considerado o mais importante dos álbuns dos Beatles. A Day in the Life junta duas composições, uma de John Lennon, a outra de Paul McCartney. É a coda de uma grande suíte psicodélica.
“Eu enterrei Paul” – diz John Lennon no meio dos ruídos de Strawberry Fields Forever. Só que o que parece “I buried Paul” é, na realidade, “cranberry sauce”.
As “pistas” são muitas. Da decisão pelo fim das turnês à capa de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Da letra de A Day in the Life (“He didn’t notice that the light had changed”) à capa de Abbey Road.
Sim, a capa de Abbey Road. Os Beatles cruzando a faixa de pedestres em frente ao estúdio londrino da EMI. Naquele dezembro de 1969, você ligava o rádio e ouvia Here Comes the Sun, a canção que os Beatles tinham acabado de lançar.
Na foto da capa, John Lennon, vestido de branco, é o pastor. Ringo Starr, de preto, o agente funerário. A posição da mão direita sugere que ele está segurando o caixão.
Paul McCartney, pés descalços e o passo trocado em relação aos outros, é o morto. George Harrison, de jeans, o coveiro. Igual à de Ringo, sua mão direita segura o caixão.
A placa do Fusca estacionado na calçada é IF 28. “If” é “se”, e 28, a idade que Paul teria se estivesse vivo. Mas, aí, o DJ errou: McCartney tinha 27 anos quando o disco foi lançado.
O próprio Paul, em 1993, brincou com a lenda. A capa de um CD ao vivo traz uma foto dele atravessando a faixa de pedestres de Abbey Road. E o título garante: Paul Is Live.
Ninguém, com um mínimo de bom senso, pode acreditar nessa história da “morte” de Paul McCartney, mas, há 57 anos, ela permanece associada ao fenômeno Beatles.
Na minha memória, essa fake news de um tempo em que não se falava em fake news está tão viva quanto Paul, que em junho que vem vai completar 84 anos.
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Resgato essa história nesse 18 de março de 2026 porque 18 de março foi o dia em que, aos oito anos, em 1967, vi os Beatles no cinema, em Os Reis do Iê-Iê-Iê, e nunca mais deixei de ouvi-los.
Também porque, se estivesse vivo, Carlos Aranha faria 80 anos nessa quarta-feira, 18 de março de 2026. Aranha, amigo, companheiro de redação, parceiro de audições musicais, figura de inteligência singular e muitos sonhos jamais materializados.
