Cabo Gilberto (PL). Reprodução
O deputado federal Cabo Gilberto Silva (PL-PB), reeleito como o parlamentar mais votado da Paraíba, comparou o avanço da direita nas eleições deste ano ao contexto que antecedeu a ascensão do nazismo na Alemanha. As declarações foram dadas em entrevista à Rádio Arapuan, em João Pessoa, ontem (05).
Ao comentar o resultado das urnas, Cabo Gilberto afirmou que o fortalecimento da direita seria uma reação do eleitorado ao que classificou como uma “humilhação” promovida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) contra apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. O deputado também voltou a defender o impeachment do ministro Alexandre de Moraes.
“A gente quer fazer justiça, e a justiça é cassar o ministro Xandão, para ele pagar pelos seus crimes. Mas sem ultrapassar a questão da humilhação. A gente tem que respeitar”, afirmou.
Para sustentar o argumento, o parlamentar recorreu ao período posterior à Primeira Guerra Mundial e ao Tratado de Versalhes. Segundo Cabo Gilberto, as punições impostas à Alemanha teriam alimentado insatisfação entre a população e contribuído para o fortalecimento de Adolf Hitler.
Na entrevista, o deputado disse que a Suprema Corte estaria provocando reação semelhante no Brasil ao, segundo ele, restringir liberdades e perseguir adversários políticos.
Nas redes socias, estudiosos e históriadores rebateram a interpretação dele e para muitos é uma apologia ao nazismo.
Questionado durante a entrevista pelo jornalista Luís Torres se estava comparando Jair Bolsonaro a Hitler, Cabo Gilberto negou. Segundo o deputado, a referência foi usada apenas como exemplo histórico para argumentar que situações de ressentimento e insatisfação social podem provocar reações políticas nas urnas.
Contestações e explicações
Um dos historiadores que refutaram a fala do parlamentar nas redes de maneira bem explicativa e didática foi professor Emilio Figueiredo (@emiliohistoriador), Mestre em Ensino de História. Ele reforçou que a história exige responsabilidade, principalmente quando o nazismo entra na conversa.
Segundo ele, a ascensão de Hitler não pode ser explicada simplesmente pela ideia de que a Alemanha foi “humilhada” depois da Primeira Guerra Mundial.
“O Tratado de Versalhes e suas consequências tiveram importância, mas o nazismo resultou de um processo muito mais complexo: crise econômica, instabilidade política, crescimento do ultranacionalismo, antissemitismo, violência política, propaganda e enfraquecimento das instituições democráticas”, afirmou.
Disse ainda que da mesma forma, afirmar que, sem determinada condição imposta à Alemanha, “não haveria Segunda Guerra Mundial” transforma um processo histórico complexo em uma relação simples de causa e efeito que a própria História não sustenta.
“Dizer que a “humilhação” imposta à Alemanha após a Primeira Guerra Mundial criou Hitler simplifica demais a História. Em 1928, com o Tratado de Versalhes ainda em vigor, o Partido Nazista recebeu apenas 2,6% dos votos”, explicou.
No texto, o estudioso diz que a “a grande virada aconteceu depois da Crise de 1929, quando o desemprego, a miséria e a instabilidade política abriram espaço para o crescimento dos extremismos. “E Hitler também não chegou ao poder simplesmente porque “venceu uma eleição”. Em janeiro de 1933, ele foi nomeado chanceler por Hindenburg, num momento em que o Partido Nazista já havia, inclusive, perdido votos em relação à eleição anterior. A partir daí, utilizou mecanismos legais, pressão política e violência para destruir a democracia por dentro.
E complementou:
“Se a humilhação de Versalhes, sozinha, explicasse o nazismo, a Alemanha teria se tornado nazista ainda em 1919. Analogias históricas podem ajudar a compreender o presente. Mas, quando envolvem Hitler, nazismo e Segunda Guerra Mundial, precisam ser feitas com contexto, conhecimento e muito cuidado. A História não deve servir apenas para confirmar aquilo que já queremos acreditar. Ela também existe para nos obrigar a pensar”, rebateu.

