Foto/Reprodução.
Com razão, um leitor me disse, mais de uma vez, que a morte é tema de muitos textos que posto aqui. E, em tom de brincadeira, ele comentou: “Não quero estar na sua coluna”.
Explico. Acho importante fazer necrológios. Fiz muitos – Cartola, John Lennon, Glauber Rocha. Isso, no tempo em que, na juventude, atuava no jornalismo impresso.
Acho importante porque tem a ver com memória, essa coisa que tanto nos falta. Mais necessário ainda é quando o morto não é tão conhecido. Como esse de agora.
Country Joe McDonald morreu no sábado, sete de março de 2026, aos 84 anos. Tinha Mal de Parkinson. Country Joe McDonald. Quantos leitores sabem da existência dele?
“Gimme an F. Gimme an U. Gimme a C. Gimme a K. What’s that Spell? What’s that spell? What’s that Spell?” – foi o seu grito de guerra, foi como o conhecemos.
Ou, como está no título da coluna: “Dê-me um F. Dê-me um U. Dê-me um C. Dê-me um K”. {Em tradução livre}: “Qual é a palavra?”. A multidão responde: “FUCK!”.
Em agosto de 1969, no imenso palco de madeira do festival de Woodstock, com uma fita amarrada no cabelo e um violão em punho, foi assim que Country Joe gritou.
Diante dele, havia um público de 400 ou 500 mil pessoas. Country Joe fazia protest song nos Estados Unidos dos anos 1960, e a canção dele era contra a guerra do Vietnã.
Os anos que se seguiram, na sua vida de artista, não corresponderam àquele momento no festival de Woodstock, mas seu grito de guerra contra a guerra ecoa até hoje.
Country Joe McDonald liderava o grupo Country Joe & The Fish. Sua performance está nos discos com a música do festival e no grande documentário Woodstock.
Depois do FUCK! que ele botou na boca da multidão de hippies, veio a canção, a mais conhecida do seu repertório. Ela se chama I Feel Like a Fish to Die Rag.
“Venham todos vocês, grandes homens fortes/Tio Sam precisa da ajuda de vocês novamente/Ele se meteu numa terrível confusão/Lá pros lados do Vietnã/Então, larguem seus livros e peguem uma arma/Nós vamos nos divertir pra caramba”.
“Venham mães por toda a terra/Mandem seus meninos para o Vietnã/Venham pais, não hesitem/Enviem os seus filhos antes que seja tarde demais/E você̂s podem ser os primeiros em seu quarteirão/A ter o seu filho chegando em casa num caixão”.
Assim é a letra, dominada pelas ironias de Country Joe McDonald. I Feel Like a Fish to Die Rag ficou conhecida também como Vietnam Song. É um clássico da protest song.
O império americano vive guerreando. No tempo de Woodstock, sob Nixon, era o Vietnã. No início do século XXI, sob Bush filho, era o Iraque. Agora, sob Trump, é o Irã.
Em 1969, o “fuck” de Country Joe era para quem fazia guerra no Vietnã. Hoje, seria para quem, rasgando o direito internacional, segue desrespeitando a soberania das nações.
