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Macalé veio desafinar o coro dos contentes

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					Macalé veio desafinar o coro dos contentes

Foto/Divulgação.

No início dos anos 1980, o Rio de Janeiro redescobriu a Orquestra Tabajara do maestro Severino Araújo. A big band era a atração das domingueiras do Circo Voador.

Como a orquestra foi fundada em João Pessoa, não tardou para que ela fosse contratada a fazer os carnavais do Clube Cabo Branco. Creio que a partir de 1982.  

Pouca gente notou, no meio de centenas de foliões, mas quem estava lá dentro da orquestra tocando tamborim, devidamente uniformizado, era Jards Macalé.

Não era surpresa para quem acompanhava a carreira de Macalé, nascido no Rio de Janeiro em 1943 e batizado como Jards Anet da Silva. Jards Macalé, que tinha enfisema pulmonar e estava hospitalizado no Rio, morreu nesta segunda-feira (17) aos 82 anos. 

Macalé cresceu tendo Severino Araújo como vizinho. Um vizinho e tanto, de quem recebeu aulas de música e por quem foi contratado como copista da Orquestra Tabajara.

Uma década antes daqueles carnavais no Clube Cabo Branco, Macalé estava em Londres, tocando com Caetano Veloso e Gilberto Gil, os dois, exilados na Inglaterra.

Macalé foi o diretor musical e fez violão e guitarra em Transa, o último dos dois discos que Caetano gravou em Londres. Para muita gente, é o melhor álbum de Caetano.

Ao saber da morte de Jards Macalé, Caetano Veloso, sendo justíssimo com o amigo compositor, postou nas redes sociais: “Sem Macalé, não haveria Transa“.  

Macalé conheceu Maria Bethânia em 1965, quando ela foi para o Rio substituir Nara Leão no Opinião. Macalé esteve perto dos tropicalistas, sobretudo de Gal Costa, quando Caetano e Gil, depois de presos pela ditadura, estavam exilados em Londres.

Macalé teve canções gravadas por Gal. Destaco pelo menos três: Hotel das Estrelas, Mal Secreto e Vapor Barato. Estão nos álbuns Legal (1970) e Fa-tal (1971).  

O primeiro disco de Macalé foi gravado quando ele voltou de Londres, em 1972. É um disco excepcional. O repertório é executado por um power trio formado por Macalé (voz e violão), Lanny Gordin (violão e contrabaixo) e Tuty Moreno (bateria). 

Aprender a Nadar (1974) e Contrastes (1976) se juntam ao álbum de estreia, que leva o nome do artista, e os três discos representam a essência do trabalho de Macalé.

Jards Macalé foi chamado de “maldito” e de “marginal”, mas ele, com razão, não gostava dessas classificações. Não eram nada justas com o grande talento que tinha.

Macalé nunca fez o que o mercado queria dele. Mas atuou com admirável criatividade produzindo, como genuíno transgressor, o que ele de fato sabia fazer: música.  

Macalé ia de Geraldo Pereira a Moreira da Silva, de Caetano Veloso a João Donato, de Fats Waller a Elvis Presley, de Severino Araújo a Waly Salomão e Torquato Neto.  

Macalé teve sua fase Nelson Pereira dos Santos. Fez música e atuou como o Cego Firmino em O Amuleto de Ogum e foi o jovem Pedro Archanjo em Tenda dos Milagres.

Macalé teve sua fase Ernesto Geisel. Ele se incorporou aos caras da esquerda (Glauber Rocha, etc.) que viam no general presidente uma via para o fim da ditadura.

Hotel das Estrelas é da parceria com Duda Machado. Mal Secreto, Anjo Exterminado, Vapor Barato, Negra Melodia – são todas da parceria com Waly Salomão.

Dona do Castelo, belíssima melodia, também foi feita com Waly. Já em Poema da Rosa, outra de inspirada melodia, Macalé tem como parceiro Augusto Boal.  

“Vou sair sem abrir a porta/E não voltar mais”. Movimento dos Barcos. Essa é uma joia preciosa do cancioneiro de Macalé. Parceria com o poeta tropicalista Capinam.

“Oh, minha honey baby/Baby, honey baby…”. Vapor Barato tem na voz de Gal Costa sua versão definitiva. Mas Fernanda Torres juntou sua voz à canção no filme Terra Estrangeira, enquanto o Rappa e Zeca Baleiro deram mais visibilidade à música.  

Jards Macalé cantava Blue Suede Shoes à sua maneira. E fazia Black and Blue como se fosse Louis Armstrong. Macalé cantava muito e era black e era blue

Besta Fera, de 2019, e Coração Bifurcado, de 2023, estão entre os melhores discos de Jards Macalé e somente confirmam o quanto ele permanecia ativo e produtivo.

No ano passado, Jards Macalé se juntou a Caetano Veloso, Tuty Moreno e Áureo de Souza e, ao vivo, recriaram o repertório do Transa, festejando os 50 anos do álbum. Só faltou Moacir Albuquerque, o baixista da banda, que morreu ainda jovem no ano 2000.

Na letra de Let’s Play That, composta em parceria com o poeta Torquato Neto, está a expressão “anjo torto”, tantas vezes usada para definir Jards Macalé. É provável que ele não gostasse, como não gostava de “maldito” nem de “marginal”. 

Mas há um verso dessa música que, talvez, seja muito fiel a um papel que Macalé desempenhou em sua vida de artista: o de desafinador do coro dos contentes. 

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