Um histórico de violência doméstica frequente e abusos sofridos durante o casamento levaram a jovem Amanda Karoline a mandar matar o marido em 2016, no Rio Grande do Norte. Como todo crime, o de Amanda gerou consequências: foi presa, julgada e condenada. Durante os anos na prisão, no entanto, resolveu transformar em livro a história de violência sofrida por ela, o crime praticado e a vivência dentro do sistema prisional.
A autobiografia “De Tambaba à prisão – uma trama real de violências e abusos no paraíso do nudismo brasileiro” foi escrita dentro do presídio e reconstrói um percurso que começa na infância, passa pelo casamento precoce, pela violência que se repetiu por anos e pelo momento em que, aos 23 anos, ela tomou a decisão que a levou à prisão. A narrativa inclui ainda um dos cenários mais conhecidos do litoral paraibano, onde os abusos começaram.
![]()
Se eu não tivesse tomado essa decisão, hoje eu não estaria falando com vocês. Eu não queria que as coisas tivessem sido dessa forma, porém ele não me deixou saída quando ameaçou a pessoa mais importante da minha vida: a minha mãe”, disse.
Da infância ao casamento imposto
Amanda Karoline, presa por mandar matar marido, transforma história em livro. Foto: Arquivo pessoal / Amanda Karoline
Amanda nasceu em 1992, em Natal, no Rio Grande do Norte. Tinha 12 anos quando conheceu Rômulo Barbosa, primo de seu pai. O relacionamento começou ainda na adolescência e, aos 15, após a família descobrir que os dois haviam tido uma relação sexual, o casamento foi imposto.
No resumo que faz da própria história, Amanda afirma que viveu cerca de dez anos em um relacionamento marcado por violência doméstica.
![]()
Fui casada durante 10 anos. Fui vítima de violência doméstica, sofri violência moral, psicológica, física, patrimonial e até mesmo a sexual, que foi quado eu entendi que estava passando por um relacionamento abusivo e decidi dar um basta no meu sofrimento de uma forma errada”
Segundo ela, as agressões começaram no primeiro mês de casamento e se repetiram ao longo dos anos. Amanda ainda diz que foi impedida de estudar e vivia sob controle e ameaças constantes.
Praia de Tambaba e a escalada da violência
A praia de Tambaba, no litoral sul da Paraíba, aparece como um dos principais símbolos da história. Localizada no município da Paraíba e conhecida por ser uma das principais praias de naturismo do Brasil, Tambaba é apresentada no livro como o cenário onde os abusos sexuais começaram.
![]()
Os abusos, inicialmente, aconteceram na praia e depois se espalharam para casas de swing e pousadas nas redondezas”
Tambaba, na narrativa, não é apontada como causa, mas como cenário de uma história que se agravou ao longo do tempo. “Eu não tenho problema com o lugar, porque o lugar não deve ser culpado pelas perversidades do ser humano”.
Ela relata que, após uma abordagem sobre troca de casais, o companheiro a obrigou a fazer sexo com outro homem diante dele, ainda na praia. Ao se recusar a repetir a situação, afirma que passou a sofrer ameaças contra a própria família. Amanda conta que, depois disso, perdeu a sensação de saída.
‘Reviver tudo não foi nada fácil, mas o fim foi libertador’
Foi em 2016, durante uma ida à academia, que uma colega percebeu marcas de violência no corpo de Amanda e sugeriu que ela mandasse matá-lo. A ideia, segundo Amanda, surgiu naquele momento e passou a ocupar seus pensamentos. Em agosto daquele ano, ela contratou um pistoleiro. O marido foi morto a tiros. Três meses depois, Amanda foi presa. Em 2018, foi julgada pelo Tribunal do Júri e condenada a 19 anos de prisão.
Ao falar sobre a decisão, ela afirma que não busca justificativas. Reconhece o crime e separa o julgamento público do que carrega internamente.
![]()
Meu arrependimento é entre eu e Deus. Não tem como se arrepender de algo que te traz paz”
Amanda na Biblioteca do sistema prisional, em 2020. Foto: Arquivo pessoal / Amanda Karoline
Amanda conta que a sentença provocou revolta. Foi esse sentimento que abriu espaço para a escrita, ainda dentro do sistema prisional, após o incentivo de uma policial penal. Transformar a própria história em palavras exigiu revisitar episódios de violência e silêncio.
![]()
Essa sentença me revoltou, porque todos os dias vemos mulheres serem assassinadas por seus companheiros e a pena deles é mínima. Uma policial penal me encontrou revoltada com tudo o que tinha acontecido e foi ela quem acreditou em mim e me incentivou à escrita. De imediato, resisti. Não queria que as pessoas soubessem as barbaridades que vivi. Reviver tudo não foi nada fácil, mas o fim foi libertador”
Amanda Karoline já vendo mais de 5 mil cópias do livro. Foto: Arquivo pessoal / Amanda Karoline
O livro foi concluído no cárcere e já ultrapassou 5 mil exemplares vendidos. Ao deixar o regime fechado, em 2022, Amanda afirma que não conseguiu se reinserir no mercado de trabalho por causa do preconceito. Sem emprego, passou a vender a obra pessoalmente, inclusive em praias do Rio Grande do Norte.
![]()
Com o uso da tornozeleira eletrônica, não consegui arrumar emprego. As pessoas só me marginalizavam. Então, meu pai surgiu com a ideia de vender os livros na praia. Não é um trabalho fácil. Há, sim, acolhimento, mas também existe o preconceito, que está enraizado na sociedade”
Hoje, ela cumpre pena em regime aberto, está casada e segue vivendo fora do sistema prisional. Além do livro já publicado, afirma ter um segundo título em preparação e um terceiro em fase de escrita. Também ocupa uma cadeira na Academia Brasileira do Cárcere, posição que define como simbólica por representar Esperança Garcia.
Foto: Arquivo pessoal / Amanda Karoline




