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Sávio Rolim morreu na semana passada. Tinha 72 anos? Ou tinha 75 anos? Até a sua idade foi um dado incerto nos necrológios produzidos pela mídia.
Sávio Rolim era um adolescente, quase um garoto, quando, em 1965, se projetou fazendo Carlinhos em Menino de Engenho, estreia na direção do cinemanovista Walter Lima Jr.
Eu era criança, mas lembro das conversas dos meus tios e seus amigos. Menino de Engenho, filmado aqui na Paraíba, causou um grande rebuliço entre nós.
Da noite para o dia, Sávio Rolim virou uma estrela do cinema. E logo se mandou para o Rio de Janeiro. Era o lugar certo, naquela época, para fazer uma carreira.
Sei que morou na casa de Dona Lúcia, mãe de Glauber Rocha. Sei também que passou um tempo no apartamento de Walter Lima Jr., que era casado com Anecy Rocha.
Anecy era irmã de Glauber Rocha. Carlos Aranha, que estava no Rio sonhando em ser cineasta ou compositor, contava histórias pitorescas daquele tempo.
Todos estão mortos. Anecy em 1977. Glauber em 1981. Aranha em 2024. Agora em 2026, Sávio. Só resta Walter Lima Jr. para dizer o que é lenda e o que não é.
O fato é que Sávio Rolim não deu certo. “Essa vontade de ser ator acaba me matando” – o que me vem à memória é o verso de Gilberto Gil na tropicalista Luzia Luluza.
Conheci Sávio Rolim na segunda metade da década de 1970, quando ele voltou para João Pessoa. Sem grana, sem convites para atuar e bebendo muito além da conta.
Por um breve período, fomos colegas no Jornal A União. Ele tentou ser repórter, mas não foi bem sucedido. Íamos com frequência ao Flor da Paraíba, um bar que ficava na esquina onde a Padre Meira se encontra com o Parque Solon de Lucena.
Não era nada fácil sentar numa mesa para conversar com Sávio. Ainda muito jovem, com pouco mais de 20 anos, ele era um cara afetuoso que o álcool logo deixava agressivo.
Perdemos contato. No começo dos anos 1980, vi Sávio numa ponta em Memórias do Cárcere, de Nelson Pereira dos Santos. Uma ponta aqui, outra acolá.
Depois, soube que estava casado com a irmã de um amigo meu. Mais tarde, soube que estava trabalhando com dedetização. Notícias vagas, sempre imprecisas.
O tempo foi passando, e as notícias sobre a vida de Sávio Rolim eram muito ruins. O garoto que brilhara em Menino de Engenho vivia quase na miséria, contavam algumas pessoas que tiveram contato com ele nas últimas décadas.
O caso de Sávio Rolim pode ser diferente, mas não é menos trágico do que o destino que tiveram meninos e meninas que se projetaram muito cedo, fazendo cinema ou televisão, e não conseguiram construir uma carreira ao menos razoavelmente estável.
Lembro muito do menino Fernando Ramos da Silva, o Pixote do filme de Hector Babenco. Fernando, assassinado pela Polícia de São Paulo quando tinha 19 anos. “Com o ódio aos que mataram Pixote a mão” – aqui, me ocorre o verso de Caetano Veloso.
Fernando, Sávio. Cada qual com sua tragédia pessoal. Pela falta de oportunidades. Pela dificuldade de lidar com as que lhes foram oferecidas. Ou pela soma das duas coisas.
Sávio Rolim morreu. Ninguém fez nada por ele. Ou talvez ele não tenha permitido. Teve vida trágica e miserável. Para o menino de engenho, não havia lugar nem na bagaceira.
