Foto: montagem/g1. Jornal da Paraíba
Ficou evidente no primeiro turno desta eleição a desconexão de parte da esquerda com o eleitor, dos candidatos ao Legislativo ao presidente Lula. A direita e a extrema-direita construíram uma narrativa fácil, rápida e ligada a temas que estão no cotidiano das pessoas: endividamento, redução de impostos, incentivo ao empreendedorismo, perda do poder de compra e combate ao crime.
É um discurso que consegue produzir a sensação de que alguma coisa pode mudar para melhor, mesmo quando não apresenta com clareza como isso será feito e qual o preço que os mais pobres e maior parte da população vai pagar para. Muito menos há ainda nitidez sobre garantias de que a democracia, como conhecemos da redemocratização para cá, será preservada. Foi esse, em boa medida, o tom adotado e os siliêncios estabelecidos por Flávio Bolsonaro no pronunciamento feito logo depois do primeiro turno.
Lula, por outro lado, mesmo com toda a sua conhecida capacidade de comunicação, teve como destaques trechos que, para uma parcela do eleitorado, parecem mais distantes da vida cotidiana: os possíveis benefícios da exploração de petróleo na Foz do Amazonas, o fortalecimento da indústria farmacêutica e as oportunidades relacionadas às terras raras. A vida real também aparece no discurso do presidente, mas frequentemente com os olhos voltados para o passado, para lembrar os avanços sociais e econômicos alcançados por milhões de brasileiros nos governos do PT.
É uma memória importante e reconhecida por uma parcela expressiva da população. Mas há também milhões de pessoas que hoje se sentem estagnadas e não enxergam no governo atual a mesma perspectiva de melhora que, no passado, ajudou a transformar o PT na força política que se tornou.
A pergunta que se impõe é outra: e agora? O que existe para hoje e para amanhã?
Se aquilo que deu certo precisa ser lembrado, aquilo que não deu também exige respostas. Mais do que recordar conquistas, é necessário apresentar soluções para problemas urgentes ou, pelo menos, sinalizações concretas de que eles serão enfrentados.
A votação do primeiro turno também mostrou que o antipetismo ainda é capaz de ampliar a tolerância de parte do eleitorado às contradições, casos de corrupção e autoritarismo da extrema-direita. Não é um fenômeno novo.
Em outro momento, setores do eleitorado petista também relativizaram ou negaram casos de corrupção que atingiram o partido. A identificação política, quando se transforma em rejeição absoluta ao adversário, costuma diminuir o peso das cobranças sobre o próprio campo.
O segundo turno chega, portanto, com Flávio Bolsonaro tentando consolidar a ideia de que será capaz de melhorar a vida da classe C, por exemplo, uma parcela da população que avançou socialmente nas últimas duas décadas, mas que hoje convive com a sensação de estagnação e com a dificuldade de enxergar perspectivas melhores para a próxima geração. Onde ele teve uma votação expressiva.
Do outro lado está Lula, marcado pelo tempo e pelo desgaste de quatro anos à frente do governo (e de anos recentes de dos petistas no comando do país) tentando encontrar um discurso capaz de apresentar respostas mais imediatas para os problemas da vida cotidiana.
Não é uma tarefa simples. O sentimento de mudança, nesta eleição, migrou para a direita.
E há ainda uma parcela do eleitorado que não está preocupada em se definir como de direita ou de esquerda. São pessoas descrentes do que está posto, frustradas com a política e, sobretudo, sem encontrar razões suficientes para acreditar que a vida vai melhorar.
É nesse eleitor que a disputa pode ser decidida.
Na corrida final, não basta defender o passado nem prometer um futuro distante. Vence quem conseguir convencer o eleitor de que há um caminho possível para melhorar a vida no presente e devolver a ele o direito de sonhar com um futuro melhor agora. A direita-extrema conseguiu no primeiro turno e vai manter a lógica. A esquerda parece que se atentou agora, no segundo turno, que a reconexão precisa de proximidade.
