Jornal da Paraíba
Nem tudo que aparece nas redes é mentira. Mas nem tudo que é verdade mostra a realidade inteira. Você já reparou como algumas pessoas parecem estar sempre nos melhores lugares? Na praia da moda, naquele restaurante disputado, no hotel maravilhoso. Tudo tão bonito que dá vontade de ir também.
Mas imagine que alguém passou apenas dez minutos naquele lugar, fez algumas fotos, gravou dois vídeos e foi embora. Depois, publicou tudo como se tivesse vivido uma experiência inesquecível.
E nós, do outro lado da tela, compramos aquela ideia.
É aqui que quero chamar sua atenção para uma coisa: nem sempre estamos vendo o que aconteceu. Estamos vendo o que alguém escolheu mostrar.
Para muitos influenciadores, mostrar que estiveram em determinado lugar faz parte do trabalho. E existe também um interesse comercial nessa história. Às vezes, há uma parceria, uma publicidade ou uma estratégia para valorizar um estabelecimento, um produto ou a própria imagem de quem publica.
Nada de errado em ganhar dinheiro produzindo conteúdo. O problema começa quando a publicidade não é identificada ou quando uma experiência cuidadosamente editada é apresentada como se fosse espontânea e completa.
E tem mais. Nós também participamos disso. Vemos aquele restaurante bombando, aquela praia aparecendo em todos os perfis e queremos conhecer. Muitas vezes, queremos até fazer a mesma foto, no mesmo ângulo, para mostrar que estivemos lá.
O influenciador vende a experiência. O público compra a ideia. E a tendência alimenta o negócio.
Agora, leve essa lógica para a política.
Imagine um debate de quatro horas. Um candidato pode passar boa parte do tempo sendo questionado, cometendo erros ou enfrentando dificuldades. Mas sua equipe seleciona três respostas favoráveis, transforma tudo em cortes de dez segundos e publica como se ele tivesse vencido o debate.
O adversário faz exatamente a mesma coisa.
Cada grupo de seguidores recebe uma versão diferente do mesmo acontecimento. E, como muita gente já tem seu candidato preferido, compartilha aquilo que confirma sua opinião sem procurar saber o que aconteceu no restante do debate.
Nesse caso, o que está sendo vendido não é uma diária de hotel ou um jantar. É uma imagem, uma narrativa, uma interpretação política.
E não é preciso inventar uma fala para distorcer um acontecimento. Basta escolher o que mostrar, retirar o contexto ou esconder o que veio antes e depois.
Um corte pode ser verdadeiro e, mesmo assim, levar você a uma conclusão falsa.
É essa economia dos pequenos pedaços de informação que merece nossa atenção. Quem publica disputa visibilidade, influência, reputação e, muitas vezes, dinheiro. Quem consome precisa aprender a reconhecer esses interesses.
Não estou dizendo que devemos desconfiar de tudo. Os cortes também ajudam a divulgar boas ideias, informações e experiências. Mas precisamos olhar para eles com um pouco mais de cuidado.
Antes de acreditar, compartilhar, comprar ou formar uma opinião, vale perguntar: quem publicou? Por quê? O que aconteceu antes? E o que ficou de fora?
Porque dez segundos podem ser suficientes para despertar nossa curiosidade, mas dificilmente bastam para contar uma história inteira.
A verdade pode estar no corte. Mas também pode estar justamente na parte que não mostraram.*
Jeoás Farias – Jornalista, especialista em Consumo de Informação e Presença Digital

