Fernando Frazão / Agência Brasil
O samba é muito mais do que um dos gêneros musicais mais conhecidos do Brasil. Com raízes na cultura afro-brasileira, o ritmo também registra transformações históricas, denuncia desigualdades e expressa experiências de diferentes grupos sociais. Por isso, suas canções podem ser utilizadas como repertório sociocultural na redação do Enem 2026, especialmente em discussões sobre racismo, identidade cultural, desigualdade social, trabalho, cidadania e direitos humanos.
Ao longo das décadas, sambistas transformaram situações cotidianas e questões políticas em letras que ajudam a compreender a sociedade brasileira. Em “A Carne”, interpretada por Elza Soares, a desigualdade racial aparece como tema central. Já “Canto das Três Raças”, eternizada na voz de Clara Nunes, recupera a história de exploração e resistência que marcou a formação do país. Outras composições, como “O Meu Guri”, de Chico Buarque, e “Identidade”, de Jorge Aragão, permitem refletir sobre a pobreza, a exclusão e o preconceito racial.
A própria trajetória do samba oferece elementos para pensar a relação entre cultura e sociedade. A manifestação musical, historicamente associada à população negra e às comunidades populares, enfrentou preconceito e perseguição antes de conquistar reconhecimento como símbolo da cultura brasileira.
Pensando nisso, o Jornal da Paraíba, reuniu dez músicas que podem ampliar o repertório dos estudantes que estão se preparando para o exame. As canções abordam diferentes problemas sociais e permitem estabelecer conexões entre manifestações artísticas, acontecimentos históricos e debates contemporâneos.
Na redação do Enem, entretanto, não basta citar uma música ou reproduzir um verso. A Competência II avalia a compreensão da proposta e a aplicação de conhecimentos de diferentes áreas na construção do texto. Para que a referência seja produtiva, o candidato precisa contextualizar a obra, explicar sua mensagem e demonstrar como ela contribui para a defesa de seu ponto de vista.
10 músicas de samba para usar como repertório na redação do Enem
1. “A Carne”, interpretada por Elza Soares
“A carne mais barata do mercado é a carne negra
Que vai de graça pro presídio
E para debaixo do plástico
Que vai de graça pro subemprego
E pros hospitais psiquiátricos”
A música, composta por Seu Jorge, Marcelo Yuka e Wilson Capellette e conhecida na interpretação de Elza Soares, aborda o racismo e a desvalorização da população negra na sociedade brasileira. A letra denuncia desigualdades que atingem pessoas negras e questiona estruturas sociais que historicamente as colocam em posições de vulnerabilidade.
A interpretação de Elza Soares também fortalece o significado da obra. Ao longo da carreira, a cantora tornou-se uma referência da música brasileira e deu visibilidade a questões relacionadas ao racismo, à desigualdade e à violência de gênero.
A canção pode ser relacionada a temas como racismo estrutural, desigualdade racial, discriminação no mercado de trabalho e violação de direitos humanos. Em uma proposta sobre os desafios para combater o racismo no Brasil, o estudante pode utilizar a música para introduzir a discussão sobre como desigualdades históricas continuam influenciando as oportunidades e as condições de vida da população negra.
Para desenvolver o argumento, a referência pode ser articulada a dados sobre desigualdade racial, à história da escravidão e às políticas de promoção da igualdade.
2. “Canto das Três Raças”, de Clara Nunes
“Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil
Um lamento triste sempre ecoou
Desde que um índio guerreiro
Foi pro cativeiro e de lá cantou
Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou
Fora a luta dos Inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou”
Lançada em 1976, a música foi composta por Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro e ficou conhecida na voz de Clara Nunes. A obra apresenta uma interpretação da formação histórica do Brasil a partir das experiências de indígenas, negros e outros grupos submetidos à exploração e à exclusão.
A canção destaca o sofrimento e a resistência de populações que tiveram papel fundamental na construção do país, mas que enfrentaram diferentes formas de violência e marginalização. Dessa maneira, a música transforma a memória histórica em instrumento de reflexão sobre as desigualdades brasileiras.
A referência pode ser utilizada em propostas sobre racismo, valorização da cultura afro-brasileira, direitos dos povos indígenas, memória histórica e desigualdade social. O estudante pode argumentar que compreender a formação do Brasil exige reconhecer tanto as contribuições desses povos quanto as violências que sofreram.
A música também permite discutir a importância de um ensino de História que contemple diferentes perspectivas e não limite a narrativa nacional à experiência dos grupos dominantes.
3. “Identidade”, de Jorge Aragão
“Quem cede a vez não quer vitória
Somos herança da memória
Temos a cor da noite
Filhos de todo açoite
Fato real de nossa história”
Na música, Jorge Aragão aborda o preconceito racial e a dificuldade de reconhecimento da identidade negra em uma sociedade marcada por desigualdades históricas. A composição questiona o racismo presente nas relações cotidianas e chama atenção para os obstáculos enfrentados por pessoas negras na afirmação de sua identidade.
A obra também permite refletir sobre como padrões sociais e culturais podem influenciar a maneira como diferentes grupos são representados e tratados.
O samba pode contribuir para discussões sobre identidade cultural, racismo estrutural, representatividade e valorização da população negra. Em uma proposta sobre os desafios para combater a discriminação racial, o candidato pode utilizar a música para discutir a permanência de estereótipos e a necessidade de reconhecer a diversidade étnico-racial brasileira.
A referência ganha força quando relacionada a conceitos históricos e sociais que ajudem a explicar as origens e a reprodução do preconceito.
4. “O Meu Guri”, de Chico Buarque
“Chega suado e veloz do batente
Traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí!”
A música narra a história de uma mãe que fala sobre o filho com orgulho, embora os sinais apresentados na narrativa indiquem que o jovem está envolvido em atividades criminosas. A composição constrói um retrato da vulnerabilidade social e permite refletir sobre a distância entre a percepção individual de uma família e a forma como a sociedade enxerga pessoas em situações de exclusão.
A obra não apresenta uma explicação única para a trajetória do personagem. Em vez disso, abre espaço para discutir as condições sociais que cercam a vida de jovens em contextos de pobreza e falta de oportunidades.
Amúsica pode ser relacionada a temas como desigualdade social, infância e juventude vulneráveis, violência urbana, exclusão e acesso à educação. Em uma proposta sobre os desafios para garantir oportunidades aos jovens brasileiros, o estudante pode discutir como a ausência de políticas públicas e de acesso a direitos pode ampliar situações de vulnerabilidade.
É importante evitar a associação automática entre pobreza e criminalidade. A referência deve ajudar a problematizar as condições sociais, sem sugerir que pessoas pobres estejam necessariamente envolvidas em atividades ilícitas.
5. “Alguém Me Avisou”, de Dona Ivone Lara
“Sempre fui obediente
Mas não pude resistir
Foi numa roda de samba
Que eu juntei-me aos bambas pra me distrair
Quando eu voltar à Bahia
Terei muito que contar
Ó, padrinho, não se zangue
Que eu nasci no samba, não posso parar”
A canção, composta por Dona Ivone Lara, é marcada pela valorização do samba e pela importância das relações comunitárias e das tradições culturais. A obra também remete à trajetória da artista, uma das mulheres fundamentais para a história do gênero musical, em um ambiente historicamente marcado pela predominância masculina.
Dona Ivone Lara conquistou espaço como compositora e intérprete em um cenário no qual mulheres enfrentavam barreiras para serem reconhecidas como criadoras e protagonistas da música popular.
A música pode ser utilizada em discussões sobre valorização da cultura popular, patrimônio cultural, desigualdade de gênero e reconhecimento das mulheres na produção artística. O estudante pode relacionar a obra à necessidade de ampliar a visibilidade de artistas que contribuíram para a cultura brasileira, mas nem sempre receberam o mesmo reconhecimento que seus colegas homens.
A trajetória da sambista também pode servir como ponto de partida para discutir a presença feminina nos espaços de criação, decisão e liderança.
6. “O Que É, o Que É?”, de Gonzaguinha
“Ah, meu Deus, eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita”
A canção de Gonzaguinha é uma reflexão sobre a vida, a esperança e a capacidade humana de encontrar sentido na própria existência. Com uma mensagem de valorização da experiência coletiva e da busca por felicidade, a música convida o ouvinte a pensar sobre as condições necessárias para uma vida digna.
Embora não seja um samba tradicional em sentido estrito, a composição transita pela música popular brasileira e é frequentemente associada a rodas de samba e repertórios do gênero.
A música pode ser relacionada a temas como qualidade de vida, saúde mental, cidadania, dignidade humana e direitos sociais. Em uma proposta sobre os desafios para garantir bem-estar à população, o estudante pode discutir a importância de políticas públicas que assegurem acesso à saúde, educação, cultura, lazer e condições adequadas de vida.
A referência permite mostrar que a qualidade de vida não depende apenas de conquistas individuais, mas também das condições sociais que permitem às pessoas desenvolver seus projetos e participar da sociedade.
7. “Apesar de Você”, de Chico Buarque
“Você que inventou esse estado
Inventou de inventar toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia
Eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia
Como vai proibir quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando e a gente se amando sem parar”
Lançada em 1970, durante a ditadura militar brasileira, a música ficou conhecida por sua crítica à repressão e ao autoritarismo. A letra apresenta uma mensagem de resistência diante de uma realidade em que a liberdade de expressão e a participação política eram limitadas.
A composição tornou-se uma referência cultural para discutir o período autoritário e os conflitos entre poder político, liberdade e direitos individuais.
Acanção pode ser relacionada a temas como democracia, censura, liberdade de expressão, participação política e direitos humanos. Em uma proposta sobre a importância da liberdade de expressão, o estudante pode utilizar a música para contextualizar os efeitos da repressão sobre a produção artística e a circulação de ideias.
A referência também pode ajudar a discutir o papel da arte como forma de crítica social e resistência política.
8. “O Bêbado e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, na interpretação de Elis Regina
“Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A Lua, tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil”
A música foi composta por João Bosco e Aldir Blanc e ganhou projeção na interpretação de Elis Regina, tornando-se um símbolo cultural associado à luta pela anistia e à expectativa de redemocratização do Brasil no fim da década de 1970.
A letra combina imagens poéticas, referências ao sofrimento e uma mensagem de esperança em meio às consequências da repressão política. A obra também ficou ligada à mobilização de pessoas que defendiam o retorno de brasileiros exilados durante a ditadura.
A música pode ser utilizada em temas sobre democracia, memória histórica, exílio, direitos políticos e justiça de transição. O candidato pode discutir a importância de preservar a memória de períodos autoritários para compreender as conquistas democráticas e evitar a repetição de violações de direitos.
A referência também permite abordar como a produção artística pode registrar experiências históricas e contribuir para a construção da memória coletiva.
9. “Sorriso Negro”, de Dona Ivone Lara
“Um sorriso negro, um abraço negro
Traz….felicidade
Negro sem emprego, fica sem sossego
Negro é a raiz da liberdade
..Negro é uma cor de respeito
Negro é inspiração
Negro é silêncio, é luto
negro é…a solidão”
A música de Dona Ivone Lara celebra a população negra e destaca a importância da identidade, da dignidade e da valorização de pessoas historicamente marginalizadas. Em vez de se concentrar apenas na denúncia das desigualdades, a composição também funciona como uma afirmação positiva da cultura e da identidade negra.
A obra permite refletir sobre a importância da representatividade e do reconhecimento das contribuições da população negra para a sociedade brasileira.
A canção pode contribuir para propostas sobre racismo, representatividade, identidade cultural e valorização da história afro-brasileira. O estudante pode relacionar a música à necessidade de combater estereótipos e ampliar a presença de pessoas negras em espaços de reconhecimento social, cultural e político.
A referência também pode ser articulada à discussão sobre a importância do ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas.
10. “Cidadão”, de Zé Geraldo
“Tá vendo aquele edifício moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Eram quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar
Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me chega um cidadão
E me diz desconfiado, tu tá aí admirado
Ou tá querendo roubar?”
Embora seja geralmente classificada como uma canção de caráter popular e social, e não como samba tradicional, “Cidadão”, de Zé Geraldo, é uma referência útil para discutir desigualdade e exclusão. A música apresenta a experiência de um trabalhador que participa da construção de espaços urbanos, mas encontra barreiras para usufruir plenamente desses mesmos lugares.
A narrativa questiona as contradições de uma sociedade em que o trabalho de determinadas pessoas é indispensável para o desenvolvimento das cidades, mas não garante, necessariamente, acesso igualitário aos bens e serviços produzidos.
A canção pode ser relacionada a temas como direito à cidade, desigualdade social, valorização do trabalho, moradia e cidadania. Em uma proposta sobre os obstáculos para garantir moradia digna no Brasil, o estudante pode discutir como a desigualdade econômica limita o acesso a direitos básicos e evidencia contradições na organização urbana.
A música também pode contribuir para uma reflexão sobre a importância de políticas públicas que ampliem o acesso à habitação, ao transporte e aos serviços essenciais.
Como usar músicas de samba na redação do Enem?
As canções podem ser utilizadas para contextualizar um problema, apresentar um exemplo cultural ou fortalecer um argumento. Para que a referência seja produtiva, o candidato precisa demonstrar que compreendeu a mensagem da obra e sabe relacioná-la à proposta.
Confira algumas orientações:
- Compreenda o contexto histórico: saber quando e em quais circunstâncias uma música foi lançada pode ajudar a explicar sua mensagem.
- Escolha a referência de acordo com o tema: uma canção sobre racismo, por exemplo, pode contribuir para uma discussão sobre desigualdade racial, desde que a relação seja explicada.
- Explique o argumento: não basta citar o nome da música ou reproduzir um verso. É necessário mostrar como a obra ajuda a compreender o problema apresentado.
- Combine diferentes conhecimentos: relacione a música a fatos históricos, conceitos sociológicos, dados ou acontecimentos pertinentes.
- Evite generalizações: uma composição pode ilustrar uma situação ou uma crítica social, mas não deve ser tratada como prova suficiente de uma afirmação.
- Não force a referência: se a música não contribuir diretamente para a discussão, é melhor escolher outro repertório.
Por que o samba também ajuda a entender a história do Brasil?
O samba possui uma trajetória ligada à cultura afro-brasileira e às experiências de comunidades populares. Ao longo do tempo, o gênero foi alvo de preconceito e marginalização, mas conquistou reconhecimento e passou a ocupar um lugar importante na identidade cultural do país.
Suas canções registram experiências de trabalhadores, comunidades negras, mulheres, artistas e grupos que enfrentaram diferentes formas de exclusão. Ao mesmo tempo, abordam sentimentos, tradições, transformações políticas e formas de resistência que ajudam a compreender a diversidade da sociedade brasileira.
Para quem está se preparando para o Enem 2026, conhecer esse repertório pode ampliar as possibilidades de argumentação não apenas na redação, mas também nas questões de Linguagens e Ciências Humanas, quando houver relação com os conteúdos cobrados.
O mais importante é compreender a obra e utilizá-la com propósito. Quando o estudante explica como uma música dialoga com o tema proposto, demonstra que consegue mobilizar conhecimentos culturais e históricos para construir uma argumentação consistente.
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