Foto/Reprodução. Silvio Osias
A notícia principal da cena política nesta quarta-feira, 29 de abril de 2026, foi a rejeição, pelo Senado, de Jorge Messias como indicado de Lula a uma vaga no STF.
Acompanhei tudo ao vivo e, após o desfecho, a pergunta que me ficou foi: em que medida esse episódio aponta para o que a eleição presidencial de outubro nos reserva?
Mas não fico só no fato principal. Costumo prestar atenção no que dizem outros fatos, pela força simbólica que eles têm, pela leitura que eles nos permitem fazer.
Durante a sabatina de Jorge Messias na Comissão de Constituição e Justiça, o senador Marcio Bittar, do PL do Acre, mentiu ao se referir a Caetano Veloso.
A fala do senador, que é do partido de Jair Bolsonaro: “Fernando Gabeira, até o Caetano Veloso, em um momento de lucidez admitiram isso, os dois disseram isso: ‘Nós não lutávamos pela democracia, lutávamos pela implantação da ditadura do proletariado’. E em nome disso pegaram em armas. Foram para a guerrilha urbana e rural. Mataram pessoas, fizeram justiçamento, e todas foram perdoadas e anistiadas em 1979”.
Na clandestinidade, Fernando Gabeira de fato atuou na guerrilha urbana e fez parte do grupo que, em 1969, sequestrou o embaixador americano Charles Burke Elbrick.
Fernando Gabeira foi preso, exilado e voltou ao Brasil anistiado, em 1979. Ele próprio, no livro O Que é Isso, Companheiro?, conta a história e faz a autocrítica.
Caetano Veloso não participou da guerrilha nem pegou em armas contra a ditadura militar. Ele e Gilberto Gil foram presos em dezembro de 1968, depois ficaram confinados em Salvador e em seguida partiram para um exílio de dois anos e meio em Londres.
Caetano Veloso – como Gilberto Gil – foi acusado de manifestações contra o regime que não aconteceram durante uma temporada de shows na boate Sucata, no Rio.
As mentiras serviram de pretexto para a prisão. Nunca provadas, elas foram difundidas por um famoso radialista que atuava numa emissora de São Paulo.
Em Narciso em Férias, extenso capítulo do livro Verdade Tropical, Caetano Veloso conta a história da sua prisão. O relato foi transformado num documentário.
Na sessão da CCJ desta quarta-feira (29), o senador Marcio Bittar mentiu, e o presidente da comissão, senador Otto Alencar, do PSD da Bahia, tratou de restabelecer a verdade.
“Apenas peço que Vossa Excelência retire da sua fala. Caetano nunca pegou em armas, só pegou a vida inteira em violão” – foi o necessário esclarecimento de Otto Alencar.
Caetano agradeceu: “Meu agradecimento ao senador Otto Alencar por restabelecer a verdade e desfazer mais uma FAKE NEWS repetida com tanta convicção. Tenho horror a armas! Como bem foi dito, me muno apenas do violão, da palavra e da canção”.
O principal era a sabatina de Jorge Messias, mas a fala mentirosa do senador Marcio Bittar fica como tradução de como pensa e age a extrema direita brasileira.
Ignorância, má fé, produção de fake news, golpismo – tudo junto na atuação desse grupo político que, tristemente, conquistou e se mantém apoiado por milhões de brasileiros.
Caetano Veloso é um grande artista. Caetano Veloso é um grande brasileiro. Caetano Veloso merece respeito. A extrema direita não merece respeito. É o lixo da política.
