A confocção de roupas é atividade econômica de destaque em São Domingos do Cariri. (Imagem: TV Paraíba)
Uma cidade com pouco mais de 2 mil habitantes produz mais de 40 mil peças de roupa por semana. Outra faturou R$ 210 milhões em um ano com a produção da mandioca e tem o beiju considerado “o melhor do mundo”. Uma terceira colhe um algodão que já nasce verde com tecnologia da Embrapa e segue direto para a Europa.
Não, não são histórias de lugares diferentes do país. São três municípios paraibanos: São Domingos do Cariri, Puxinanã e Itatuba, respectivamente, separados por poucas dezenas de quilômetros e unidos por um mesmo fenômeno econômico: o arranjo produtivo local, ou APL, o nome técnico dado a quando uma comunidade inteira se especializa em produzir algo, recebe apoio público e/ou institucional, gera renda e emprego em volta daquilo e passa o conhecimento de geração em geração.
A produção de mandioca rendeu R$ 210 milhões na região de Puxinanã, em 2025.. (Imagem: TV Paraíba)
O que tem por trás do sucesso
Em São Domingos do Cariri, a costura é tradição antiga e ganhou festa própria em 1980. Um dos negócios de destaque na cidade é o de Dona Inácia, que produz, com a família, cerca de 1.500 vestidos por semana. Outro produtor, João Tavares Dantas, que começou aos 11 anos, comanda 40 profissionais e vende para o país inteiro. O salto veio do comércio pela internet, que levou a produção local para o Rio Grande do Sul, o Maranhão, Brasília, Rio de Janeiro e Goiás.
Puxinanã realizou a 12ª Festa da Mandioca, com apoio de instituições, como o Sebrae, Senai, Banco do Nordeste e Governo da Paraíba, que ajudam os produtores a acessar crédito e vender para o poder público.
Em Itatuba, o algodão colorido verde, variedade desenvolvida pela Embrapa e plantado sem agrotóxicos, já beneficia mais de 70 famílias e tem 30 toneladas previstas por safra, com um detalhe raro: o agricultor assina contrato antes de plantar e sabe exatamente por quanto vai vender.
A receita dos arranjos produtivos locais
O padrão dos APLs não é coincidência. Tem sempre especialização territorial em algum item ou produtos de um gênero. Reúne uma rede de pequenos produtores e conta com instituições de apoio (Sebrae, Embrapa, Empaer, bancos), que potencializam e profissionalizam um maior e melhor acesso ao mercado. Em escala nacional, esse modelo não é nicho: são 677 arranjos espalhados por 2.175 municípios, quase metade de todos os municípios brasileiros. Esse tipo de mercado local é responsável por mais de 3 milhões de empregos diretos, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
O algodão colorido verde, desenvolvido pela Embrapa, sem agrotóxicos, beneficia mais de 70 famílias, com 30 toneladas previstas por safra.. (Foto: Reprodução/Empaer)
Onde a Paraíba precisa avançar
Segundo os órgãos de apoio aos setores produtivos, a riqueza é gerada apesar da estrutura, muitas vezes precária e não profissional. Isso significa que enfrentamos gargalos, que são recorrentes em várias prtes do estado.
Falta formalização. Muitos polos operam como APL “de fato”, mas sem cadastro, sem um CNPJ. E sem isso não acessam linhas coletivas do BNDES nem programas estaduais. Falta comprar local. O instrumento mais barato é o mais negligenciado: as prefeituras comprando do próprio arranjo via Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Cada real gasto em compra pública local circula três vezes na própria cidade, segundo especialistas. Falta replicar o modelo do algodão nos arranjos em que a contratualização possa ser semelhante. Contrato antecipado mais assistência técnica e comprador garantido.
Também falta infraestrutura para o digital. O e-commerce multiplicou o alcance de São Domingos do Cariri sem construir uma fábrica nova. O gargalo agora não é demanda: é logística e capital de giro para as pequenas costureiras darem conta do próprio sucesso.
O horizonte
Os três arranjos mostram que o interior da Paraíba não depende de obra grande para gerar riqueza. Depende de reconhecer, formalizar e financiar o que já existe. Dos exemplos citados acima à produção leiteira, caprinovinocultura, agricultura familiar, artesanato, pequenas indústrias, comércio e outras áreas. O que falta não é talento nem tradição. E muito menos mercado, esteja ele no PAA administrado pela prefeitura da própria cidade ou em clientes de uma região distante do país. É necessário criar uma cultura do desenvolvimento regional, começando por microrregiões e sua vocações. E isso passa por um olhar dos entes federais, estadual e municipais, além do fomento de crédito e qualificação, através de instituições parceiras reconhecidas. Um caminho que não é fácil e nem rápido. Mas que, uma vez tomado, pode ser a solução para áreas remotas onde o desenvolvimento ainda teima em chegar.



