Foto/Reprodução TV Globo
Na semana passada, de segunda-feira (24) a sábado (29), o Jornal Nacional entrevistou seis candidatos à Presidência da República: Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos, Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro e Augusto Cury.
Essas sabatinas se repetem a cada eleição presidencial, e tenho o hábito de acompanhá-las. São necessárias ao processo eleitoral e à vida democrática, mas confesso que não gosto do tom excessivamente inquisidor adotado pelos entrevistadores.
Concordo que os temas polêmicos devem, sim, ser colocados e que a emissora não tem a obrigação de ser boazinha com os candidatos. Mas, não é de hoje, a sensação que as sabatinas do JN me dão é de que beiram a agressividade com o entrevistado.
Vi as entrevistas na GloboNews, todas elas seguidas da Central das Eleições, programa em que eram analisadas pelos comentaristas, sob o comando de Natuza Nery.
Fernando Gabeira, num dos programas, definiu o formato com propriedade. A primeira parte é para lavar a roupa suja. A segunda é para tratar de propostas. O problema, na visão de Gabeira, é que a lavagem de roupa suja se estendeu demais.
Grande queixa do eleitorado de Lula, isso levou muita gente a dizer que a semana de sabatinas marcou a adesão da Globo à candidatura de Flávio Bolsonaro – leitura que não corresponde à realidade e que só encontra explicação no passionalismo do eleitor.
Presa e torturada pela ditadura militar, mas nem por isso assimilada pela esquerda, Miriam Leitão fez uma observação muito pertinente em defesa do presidente Lula.
Lula foi o quarto entrevistado. Antes dele, já tinham passado pela bancada Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos. A observação de Miriam: Lula era o único candidato que não precisava ser questionado sobre seu compromisso com a democracia.
Zema e Caiado prometeram anisitia aos condenados pela tentativa de golpe, do ex-presidente Jair Bolsonaro aos anônimos que depredaram Brasília no oito de janeiro. E Renan não escondeu sua admiração pela práticas do ditador de El Salvador.
Depois da entrevista de Renan Santos, aliás, Thomas Traumann disse que ele não se apresentava como candidato a presidente, mas como candidato a ditador.
Lula – voltando a Miriam Leitão – não precisa ser indagado sobre seu compromisso com a democracia. Ele é real, permanente e está inscrito em sua admirável biografia.
Flávio Bolsonaro veio depois de Lula. Vou fazer minhas as palavras de Natuza Nery na Central das Eleições: “Ele enrolou muito, ele mentiu muito”. Resume bem.
Das seis entrevistas, duas chamaram minha atenção: a de Renan Santos e a de Augusto Cury. Renan e Cury, um completamente diferente do outro.
Da bomba atômica a um banho de sangue, passando pela desobediência a decisões do Supremo, Renan defende ideias que atentam contra o Estado Democrático de Direito. Ele só tem 42 anos e pode representar, amanhã, uma grave ameaça à democracia.
Psiquiatra, autor de livros de sucesso, Augusto Cury delirou durante os 40 minutos da sabatina. Sim. Isso mesmo. Delirou. Da adoção irreal da telemedicina às teses sobre IA e robótica, passando pelos drones que salvariam as mulheres do feminicídio.
Não faz muito tempo, tínhamos na disputa presidencial nomes como os de José Serra, Geraldo Alckmin, Eduardo Campos, Ciro Gomes, Marina Silva, Simone Tebet – candidatos sobre os quais a esquerda imprimia um carimbo de representantes da direita.
Hoje, temos Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos, Flávio Bolsonaro e Augusto Cury. Só confirmam a deterioração da cena política nacional.
