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Viva Barretão! Viva o cinema brasileiro!

CBN Paraíba

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					Viva Barretão! Viva o cinema brasileiro!

Outubro de 1999. Eu e Rômulo Azevedo caminhávamos pelo aeroporto de Congonhas. Íamos para São José do Rio Preto participar do projeto Uniglobo.

Cinéfilo, professor de cinema, Rômulo Azevedo comandava, em Campina Grande, a redação da TV Paraíba, como eu fazia, em João Pessoa, na TV Cabo Branco. 

Na direção contrária à nossa, lá vinha Luiz Carlos Barreto. De terno, com uma pasta na mão. Um executivo que se confundia, ali, com as pessoas anônimas.

Rômulo Azevedo prontamente me cutucou e disse: “Sílvio, olhe quem vem aí. O grande Barretão!”. Ao que respondi: “Sim, Rômulo, eu já vi”.   

Passamos por Barretão. Barretão passou por nós e seguiu caminhando. Rômulo Azevedo, então, virou-se e bradou: “Barretão! Viva o cinema brasileiro!”. 

Tomei um susto porque não tinha a menor ideia de que Rômulo faria aquilo. E, por sua vez, Barretão tomou um susto porque foi surpreendido. Mas agradeceu.

Uma vez, perguntei a Vladimir Carvalho sobre Barretão, e ele respondeu: “É um amor de pessoa, lhe pega pelos braços, se for possível, lhe põe no colo”.

O retrato que há na fala de Vladimir Carvalho é o do ser humano que todos chamavam de Barretão porque, um dia, Nelson Rodrigues assim passou a chamá-lo. 

O retrato que há no brado de Rômulo Azevedo é o do homem do cinema. Sem Luiz Carlos Barreto, digo sem medo de errar, o cinema brasileiro não seria o que é. 

Luiz Carlos Barreto morreu no Rio de Janeiro nesta quarta-feira, 22 de julho de 2026. Estava no hospital com uma infecção pulmonar. Tinha 98 anos.

Luiz Carlos Barreto era um cearense que foi para o Rio muito jovem. Trabalhou como fotógrafo da revista O Cruzeiro, antes de se envolver com o mundo do cinema.

Fez a direção de fotografia de dois dos mais importantes filmes brasileiros: Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, e Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha. 

A luz do Nordeste, do jeito que ela é vista em Vidas Secas, a gente deve creditar a Luiz Carlos Barreto. Isso já o poria na história da cinematografia nacional.

Mas a produção de filmes é que foi o principal na sua longa vida de homem do cinema. Na sua vida e na da mãe dos seus filhos, Lucy, com quem foi casado durante décadas.

A empresa deles não levava só o nome de Barretão, o que talvez fosse mais provável num mundo dominado por homens. Mas não. Era Lucy e Luiz Carlos Barreto. 

Fábio Barreto, o filho que dirigiu O Quatrilho, sofreu um acidente de carro em 2009 e, antes de morrer, passou uma década em coma. Uma tragédia familiar.

Bruno Barreto, o filho mais velho, dirigiu Dona Flor e Seus Dois Maridos, um dos grandes sucessos comerciais do cinema brasileiro. Aos 17 anos, fez seu primeiro longa-metragem, Tati, A Garota, e ainda não tinha 20 quando dirigiu A Estrela Sobe.    

Barretão e Lucy produziram dezenas de filmes, mais de uma centena, enfrentando e vencendo os obstáculos comuns aos que, no Brasil, se dedicam ao cinema. 

Luiz Carlos Barreto. Barretão. A sua vida, o seu trabalho, o amor pelos filmes que fez. Tudo isso se confunde com a própria trajetória do cinema brasileiro.

Não é possível pensar no que aconteceu com o cinema brasileiro a partir do início dos anos 1960 sem inserir nesse caminho o nome de Luiz Carlos Barreto.

Viva Barretão! Viva o cinema brasileiro! Viva quem empresta a este o seu talento genuíno e a sua criatividade. É no que a gente pensa no adeus a Luiz Carlos Barreto.    

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