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Aproveitar a jornada é necessário, pois ela nem sempre (quase nunca) acaba bem

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					Aproveitar a jornada é necessário, pois ela nem sempre (quase nunca) acaba bem

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Se tem uma coisa que parece fato atualmente é a que aproveitar a jornada é necessário – principalmente quando falamos das séries que amamos.Por mais que o caminho seja incrível, muitas vezes o final parece ser um problema para diversos autores, produtores e criadores da cultura pop.

The Boys, sucesso do Prime Video, conseguiu manter um tom elevadíssimo e entregar pelo menos três grandes temporadas numa série exclusiva do streaming e adaptada de uma HQ pouco conhecida (que inclusive muitos consideram de um nível inferior ao que a adaptação eventualmente se tornou). Desde sua estreia em 2019 até meados de 2022, a série entregou uma crítica amarga e cínica sobre a sociedade moderna, a cultura das celebridades na era digital, o levante da extrema direita e o discurso inflamado em diversos setores da sociedade e a sede de acima de todas as coisas.

Mas, os últimos dois anos do seriado mostram que nem toda irreverência, humor e bons personagens à disposição dos roteiristas conseguem salvar a simples falta de direcionamento deles próprios.

O que parece e se comprova a cada ano é que essas temporadas aquém do esperado pelos fãs deixou de ser uma exceção e praticamente virou uma regra. Séries como Game of Thrones, Stranger Things e a própria The Boys mostram que o que mais interessa para as produtoras não é uma história, e sim uma aventura. Essa aventura pode ter seus bons momentos, altos e baixos, ou um grande e bom momento que dura anos. Mas o compromisso de quem o escreve não necessariamente está no final.

No atual estado das coisas, a última temporada deixou de ser a cartada final e se tornou o último momento do lucro definitivo. Não importa se existem House of the Dragon ou Gen V ou séries derivadas de qualquer forma. A principal fonte de renda é a série principal e, por isso, a última temporada tem que ser um evento, mas não um evento celebratório: um evento de engajamento.

A meta é: as pessoas têm que falar, têm que comentar, têm que compartilhar e diversos vídeos precisam ser feitos abordando o final. Caso não seja possível acontecer isso como em Breaking Bad, onde todos só elogiavam, é necessário outro caminho: o caminho controverso e, por muitas vezes, mal feito.

Dentro do universo da série de heróis da Prime Vídeo, um paralelo perfeito pode ser feito. Na trama, a personagem Sage tem o super poder de ser a pessoa mais inteligente do mundo e sempre comentava sobre seu grande plano secreto, bem estilo Cebolinha, que mudaria tudo. Os fãs tinham uma desconfiança: os produtores não faziam ideia o que seria o fim desse plano e no final ficou claro: ninguém sabia o que era. E isso é uma ótima metáfora para a série como um todo.

Com todo o desenvolvimento de personagem, escala absurda de poderes e níveis cada vez mais extremos, difíceis e perigosos, fica claro que não existia um lugar onde se esperava chegar. Por isso, uma quinta temporada apática, triste, pouco movimentada e que se tornou exatamente aquilo que a série já parodiou um dia: a saga de uma empresa, representante do grande e opressor sistema capitalista, que só quer ganhar dinheiro em cima do seu produto e aproveita os suspiros finais de uma propriedade para divulgar de toda forma um derivado, que irá garantir que o lucro nunca cesse (nesse caso, o seriado Vought Rising, que deve ser lançada no ano que vem).

Trazendo para o mundo real, a série The Boys e todo o universo que se tornou muito lucrativo para o Prime Video são naturais do streaming. Nasceram no mundo que produz e vende entretenimento para a internet. Nesse universo, não conta a crítica, ou pouco conta. A crítica trabalha para divulgar uma série iniciante, para estimular com que as pessoas assistam uma nova aventura. Por isso, uma primeira temporada altamente aclamada serve bem para o propósito geral.

Mas depois de um tempo que as pessoas já estão apegadas aos personagens e àquele universo, o que mais conta para as empresas são as horas consumidas da série. É fazer com que os fãs assistam, assistam novamente e, se possível, consumam também os produtos derivados. Passado um tempo, não é necessário mais agradar a opinião e sim gerar engajamento, seja falando mal ou falando bem.

Numa última temporada que parece ter muito menos orçamento do que as outras, enclausurada em poucos cenários e tendo seus personagens repetirem as mesmas coisas por uma hora durante dois meses, The Boys mostra que os cortes nas redes sociais falaram mais alto. E o roteiro ficou num jogo de espera durante diversas semanas só para chegar no último episódio, que poderia muito bem ser apenas um episódio extra da quarta temporada, e entregar uma porradaria que, a cada soco, revela a falta de planejamento das tramas ao redor daquela cena. Os personagens evoluem e retrocedem, os riscos se exacerbam e, por si só, se acalmam, tornam-se inofensivos. E, mesmo que ninguém tenha se pronunciado para defender essa temporada, todos falaram dela. Falem bem ou falem mal, mas falem da minha série.

Por isso, é muito importante saber aproveitar a jornada nesse mundo que exige de nós atenção. Mas, que sejamos criteriosos sobre onde depositar essa atenção e aproveitemos enquanto as grandes empresas ainda estejam interessadas em nos conquistar, juntamente com a nossa opinião, para curtir bons conteúdos de boa qualidade- sempre com aquilo em mente: eles são efêmeros. Por isso, que a jornada seja plena enquanto durar.

* Guilherme Bezerra é jornalista e repórter da rádio CBN Paraíba

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